Stellan Skarsgard fala em Karlovy Vary do “nazi” Ingmar Bergman e do “tímido” Lars Von Trier

(Fotos: Divulgação)

Regressando ao Festival de Karlovy Vary para a atribuição do Globo de Cristal de Contribuição Artística de Destaque para o Cinema Mundial, o ator Stellan Skarsgard, que este ano conseguiu uma atuação brilhante em “Sentimental Value”, de Joachim Trier, abordou perante os jornalistas e o público checo várias questões diretamente ligadas a dois cineastas nórdicos com quem trabalhou e que figuram na lista dos grandes nomes da 7ª arte: Ingmar Bergman (1918-2007) e Lars Von Trier (1956-).

Sobre o realizador e dramaturgo sueco, considerado um dos maiores e mais influentes cineastas de todos os tempos, Skarsgard (re)lançou polémicas, ao abordar o “seu nazismo” e a forma “manipuladora” com que este trabalhava. “A minha relação complicada com Bergman tem a ver com o facto dele não ser uma pessoa muito simpática. Ele era um bom realizador, mas ainda assim é possível definir alguém como um idiota. O Caravaggio provavelmente também era idiota, mas fez pinturas incríveis”, disse o ator, que trabalhou com Bergman em “Hustruskolan” (1983). “Bergman era manipulador. Ele era nazi durante a guerra e foi a única pessoa que conheço que chorou quando o Hitler morreu. Continuamos a tentar desculpá-lo, mas tenho a impressão de que ele tinha uma visão muito estranha das outras pessoas. Ele acreditava que algumas pessoas não eram dignas. Sentias isso quando ele manipulava os outros. Não era uma boa pessoa”.

Já sobre Lars Von Trier, com quem colaborou múltiplas vezes e definiu como “tímido“, Stellan confessou, durante uma masterclass, que considerou os primeiros filmes do dinamarquês muito “frios” e que, por tal, nunca o “tocaram” particularmente. Foi em “Breaking The Waves” que o ator entrou finalmente no espírito do polémico dinamarquês, tendo pensado que chegava até ele uma “história de amor com que se podia identificar”.

Stellan Skarsgard em Karlovy Vary

A dupla reencontra-se em “Dancer in the Dark”, projeto que ficou marcado pela relação conflituosa de Trier com Bjork. “Estava ocupado e só pude fazer um papel pequeno, mas o Lars teve alguns problemas. Ele não se dava bem com a Björk e ela não se dava bem com ele. Eram os dois controladores, habituados a conseguir o que queriam. Quando finalmente cheguei ao set, o produtor começou a chorar. Eu sabia que algo estava errado (…) Não acho que eles se odiassem — ele não a odiava, pelo menos. Mas eles definitivamente não se deram bem.

Dogville” e “Melancholia” foram as colaborações com Trier que se seguiram, tendo o último visto a sua estreia eclipsada por uma famosa conferência de imprensa em Cannes que o transformou em persona non grata do festival francês durante alguns anos: “Todos naquela sala sabiam que ele não era nazi, que era o oposto, e ainda assim fizeram daquilo a manchete para os jornais. E então, as pessoas que só liam as manchetes e acharam que ele era nazi. Foi apenas uma piada de mau gosto. Lars cresceu com um pai judeu e, quando a mãe estava a morrer, ela disse-lhe que ele não era seu pai biológico. Era o chefe dela, um alemão (…) Amo o homem e amo o trabalho dele, mas isso não significa que concorde com tudo o que ele faz.

Recorde-se que além de Stellan Skarsgard, o Festival de Karlovy Vary, que decorre até dia 12 de julho, homenageou ainda Vicky Krieps, Dakota Johnson e Peter Sarsgaard com a atribuição do com o Prémio do Presidente KVIFF.

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