7 filmes do mundo árabe que deram que falar no Festival do Cairo

(Fotos: Divulgação)

O meu principal objetivo é apoiar a indústria de cinema no Egito e nos países árabes”. Estas foram as palavras de Mohamed Hefzy, presidente do Festival Internacional do Cairo ainda antes do certame arrancar no passado dia 26 de novembro.

Palavras que se exprimiram no programa, onde bem além da estreia nas longas-metragens da super estrela de cinema da Tunísia Dhaffer L’Abidine, “Tomorrow” (Ghodwa), existiam outros motivos de celebração. E se alguns dos títulos exibidos, como “Memory Box”, “A Tale Of Love And Desire“ e “The Stranger“, já vinham com o selo de qualidade de outros certames, nomeadamente da Berlinale, Cannes e Veneza, muitos outros – sem grande percurso internacional – foram exibidos no Cairo, em alguns casos pela primeira vez.

É desses filmes que falamos abaixo, numa pequena seleção que demonstra não só qualidade, mas a diversidade atual do cinema árabe rumo ao futuro.

E não podíamos começar a falar destes filmes sem mencionar em primeiro lugar “Abu Saddam”, único filme egípcio na competição à Pirâmide de Ouro. No filme seguimos a jornada da personagem que dá titulo ao filme e do seu companheiro de viagem, que pelas estradas egípcias vão desembaraçando histórias que nos levam às razões que explicam o hiato temporal que levou Abu Saddam a regressar à cabine de um camião. Para falar destas personagens e de um mundo muito masculino temos Nadine Kahn, que aproximando-se de uma linguagem bem longe da habitual nestas paragens executa um filme que finalmente a faz “ser levada a sério” e a transforma numa cineasta a seguir no futuro.

Também na principal competição do Cairo encontramos “Daughters of Abdul-Rahman”, uma comédia dramática que chegou da Jordânia sob assinatura de Zaid Abu Hamdan. Aqui acompanhamos quatro irmãs bem diferentes que se juntam e terão de encontrar o pai que anda desaparecido.

Comédia de emancipação e sororidade que nunca esquece questões sociais e políticas no que toca ao papel da mulher na sociedade árabe, “Daughters of Abdul-Rahman” é um crowd-pleaser de tom reflexivo que não cede a audiências locais e que poderia viver facilmente em mostras internacionais mais orientadas para agradar o grande público.

E da Jordânia saltamos para a Arábia Saudita. O selo é do Red Sea Film Festival, mas a estreia mundial de “Becoming” aconteceu no Cairo. Uma antologia assinada por cinco mulheres – Hind Alfahhad, Jowaher Alamri, Noor Alameer, Sara Mesfer, e Fatima Al-Banawi – que mostram que há novos nomes no cinema saudita a acompanhar além da pioneira Haifaa al-Mansour. Da pressão em crescer na passagem da infância para a adolescência, à demência, passando pela maternidade ou a mera condição de já poder conduzir, o filme aborda temáticas relevantes que acentuam o papel do cinema como arma de reivindicação, mas igualmente de combate aos clichês e a perceção errada externa sobre a mulher saudita.

É da competição Horizontes do Cinema Árabe que chega mais uma sugestão, “A Second Life”, um drama em torno de Gadeha, um miúdo atropelado que descobre que a sua mãe, enquanto ele estava internado, aceitou vender)um dos seus rins a uma família mais abastada com quem agora todos vivem. O destino desse rim é o filho do casal, que juntamente com Gadeha vai-se unir para questionar toda a ética da transação. Pelo caminho, críticas à sociedade e a uma estrutura familiar onde se questiona o poder dos pais sobre os filhos. Merece certamente uma olhadela.

Longe da cinematografia bélica norte-americana, não é todos dias que acedemos a uma produção cuja ação decorre no Iraque pós-invasão. “Our River…Our Sky“, da britânica de origem iraquiana Maysoon Pachachi, transporta-nos a um Iraque onde o cheiro a pólvora permanece no ar e “nada funciona”.

Estreado no Festival de Sarajevo e agora exibido no Festival do Cairo, “Our River…Our Sky” não esconde as restrições do seu orçamento, nem a sua forma que muitas vezes visita o teatro e o telefilme, mas encontra a sua força no seu texto e personagens, todas elas ardilosamente construídas de forma a mostrar um infindável número de obstáculos que têm de ultrapassar e que vão bem além do terrorismo.

Resta-nos agora dois filmes que se inserem no registo documental. Em “Nile Crocodile“ acompanhamos Abdel Latif Abu Heif, um homem que aos 10 anos já era campeão em Alexandria e que viria o seu legado reconhecido internacionalmente em 2001, quando recebeu o prémio de nadador do século XX e a Federação Internacional de Natação nomeou-o maior nadador da história.

E temos “From Cairo”, objeto pessoal assinado por Hala Galal e que acompanha Heba, uma fotojornalista, artista e mãe solteira que luta para sobreviver. Numa troca terapêutica, Heba conhece Aya, uma jovem que perdeu os pais e tentou se conformar às expectativas sociais usando o véu. Mais um filme onde a condição da mulher no mundo árabe, neste caso no Egipto, é questionado. Um filme que funciona como uma arma de reivindicação perante uma sociedade patriarcal ainda muito forte.

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