Festival de Tribeca 2026 aposta na reinvenção de estrelas internacionais

(Fotos: Divulgação)

Filho da maior estrela da Argentina, Ricardo Darín, e conhecido por projetos de plataformas digitais, Chino Darín pode sair do Festival de Tribeca de 2026 com outro estatuto… e uma nova imagem… graças ao seu desempenho em Dante, thriller espanhol com sessão marcada para domingo na maratona nova-iorquina. Na trama, um jovem paramédico, papel de Chino, responde a uma chamada de emergência e vê-se, sem querer, envolvido numa guerra entre dois chefes do crime, desencadeando uma série crescente de reviravoltas horríveis ao longo de uma noite vertiginosa. A adesão do ator latino-americano a um projeto de grande violência, assinado por Hugo Ruiz, é também um meio de procurar uma nova identidade fora da sua pátria… e do seu continente… na sinergia das estéticas indie de um festival habituado a reinventar personalidades.

Criado há 25 anos por Robert De Niro, em resposta ao trauma do 11 de Setembro, o evento é uma montra para produções avessas aos algoritmos, estimuladas pelo desejo de encontrar um novo caminho para os seus ou as suas protagonistas, incluindo figuras formatadas pelas indústrias da cultura pop. Essa lógica vale também para a música e para a dinâmica fonográfica analógica, o que justifica a forte procura pelo documentário Frampton. O seu foco são os 50 anos do disco Frampton Comes Alive!.

A dramaturgia construída pela realização de Rob Arthur, músico profissional, analisa o percurso que o cantor e guitarrista Peter Frampton construiu ao cantar Do You Feel Like We Do, Baby, I Love Your Way e Show Me the Way. As bandas The Herd e Humble Pie foram essenciais antes de ele se tornar artista a solo e viver uma ascensão meteórica. Essas ligações costuram o argumento, fiel ao desejo de Tribeca por narrativas em que figuras conhecidas do público se desconstruam. O Peter que vemos em cena foge da imagem que dele se fixou através dos seus concertos lotados.

Em destaque na foto acima, Eli Roth, o Bear Jew de Inglourious Basterds (2009), brinca com a sua natureza mórbida como uma espécie de guia do documentário Death Boom, de Jessica Chandler. O argumento acompanha profissionais da área funerária que se preparam para 77 milhões de mortes de baby boomers, expondo os impactos ambientais e de saúde mental do embalsamamento, da cremação e do enterro tradicional.

“Clean Hands, com Zach Braff e Esther McGregor

Aclamado nos anos 2000 nas veredas da comédia com a série médica e galhofeira Scrubs, hoje de volta ao streaming, Zach Braff segue um caminho distante de tudo o que já fez em Clean Hands, no papel do polícia Kevin Simmers. Baseado em factos reais, este agente da brigada antidroga dos EUA lutou contra o agravamento da dependência de opiáceos da filha de 19 anos, Brooke, interpretada por Esther McGregor. Habituado a limpar as ruas de Hagerstown, no Maryland, uma rota da heroína, vê a pessoa que mais ama lutar contra o vício dentro de casa, repensando as táticas de guerra contra os narcóticos. É um trabalho que pode levar Braff ao Óscar.

Katie Holmes também passa por este Tribeca em busca de uma nova posição profissional para si, agora no posto de realizadora. É ela quem assina Happy Hours. Nele, reencontra o seu colega da série Dawson’s Creek, Joshua Jackson. A atriz e cineasta interpreta a recém-divorciada fotógrafa Liz, sempre rodeada de casais felizes. Ao passar por uma livraria que anunciava uma palestra com um escritor de livros de viagens, Liz fica paralisada ao perceber que o sujeito foi seu namorado de liceu. Esse é o papel de Joshua, que surpreende a crítica com a sua boa interpretação. Através de um trabalho fortuito, Liz fotografa Andrew, e os dois retomam o convívio, e quiçá o amor, a partir do ponto em que o deixaram, reacendendo a chama, confiando-se um ao outro e superando velhas feridas. À medida que a fantasia de uma vida com Andrew se torna mais próxima da realidade, Liz tem de decidir se está pronta para se permitir amar de novo.

Outra reinvenção… e das mais improváveis… deste Tribeca: Dustin Hoffman. Aos 88 anos, a um passo de lançar a sua autobiografia, o livro Look At Me, previsto para novembro, a estrela de Kramer vs. Kramer (1979) ganha agora uma nova oportunidade de brilho em The Revisionist, de Alex Vlack, ao lado de Alison Brie, a Maligna do recém-lançado Masters of the Universe. Ela interpreta Elise Keller, uma escritora de sucesso ocupada com o que pode ser o seu próximo best-seller. Só há um problema: sofre de um grave bloqueio criativo. Quando o seu amigo de longa data, John, interpretado por André Holland, regressa à sua cidade natal, Elise pensa ter encontrado a solução perfeita para os seus problemas domésticos. John pode cuidar do pai idoso do seu marido, Jacob, personagem de Tom Sturridge, o sogro David, vivido por Hoffman. A ideia é que o amigo consiga gravar as conversas geniais do velho para potenciais inspirações literárias. À medida que as relações individuais se aprofundam e a linha entre ficção e realidade se esbate, segredos são desenterrados, limites são ultrapassados e o quarteto vê-se transformado para sempre.

Badalados na televisão, a inglesa Emilia Clarke, de Game of Thrones, e o venezuelano Edgar Ramírez, de Carlos, reciclam as suas personas numa história de amor que Tribeca pode transformar num sucesso de bilheteira: Next Life. No enredo, Ivy, personagem de Emilia, conhece um músico de jazz cheio de charme, papel de Ramírez, no comboio, numa manhã decisiva, quando se abrem duas linhas temporais distintas na sua rotina. Numa delas, Ivy apaixona-se por esse desconhecido. Na outra, volta a encontrar o seu ex-noivo, interpretado por Jack Farthing.

Tribeca segue até 14 de junho.

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