Aquando do lançamento de Materialists, a realizadora Celine Song denunciou a desvalorização misógina da comédia romântica, que sistematicamente tinha sido empurrada para a etiqueta menor de “filme de miúdas” (Chick Flicks), como se o amor, o desejo e a intimidade não fossem preocupações dignas de pessoas “sérias” ou de quem faz cinema “maior”.  

Isso não significa que o público tivesse perdido o desejo pelo romantismo, bem pelo contrário, como demonstra a explosão dos K-dramas, o sucesso de Bridgerton, Normal People e One Day, a literatura para jovens adultos, a fanfiction e até o BookTok. O público continua a desejar romance, mas o cinema industrial perdeu efetivamente a sua capacidade e vontade de filmar corpos em fricção, com risco e eletricidade.

O que efetivamente desapareceu foi a comédia romântica como uma experiência adulta, física e verdadeiramente cinematográfica, onde havia corpos que se seduziam, olhares que duravam meio segundo a mais, toques aparentemente casuais que mudam a temperatura de uma cena, além de pausas carregadas de excitação, embaraço e expectativa. 

O romance, essa coreografia de aproximações, recuos e mal-entendidos, sofreu uma higienização e ficou presa numa tendência mais morna, quase platónica, onde tudo é tratado como compatibilidade emocional, muitas vezes com o termo “empatia” pelo meio, sem nunca evocar uma verdadeira tensão física. No fundo, herdou-se uma fórmula, mas perdeu-se a fricção e o desejo, que por sua vez sempre foi um tabu no feminino. 

Nesse sentido, a componente romance e todas as suas consequências, da sedução à nudez, passando inevitavelmente pelo contacto físico e o sexo, esmoreceu, sendo contrabalançada pela vertente de comédia, que apesar de alguns “chorões” dizerem que ficou à mercê das patrulhas da moral, esquecem-se que elas sempre existiram, particularmente como fonte de pressão “tradicional” ao tipo de relacionamentos que poderiam ser mostrados, e à exposição da carnalidade e sexualidade deles resultante.

É aqui que entra em cena Office Romance (Paixão de Escritório), a nova comédia romântica da Netflix com Jennifer Lopez e Brett Goldstein no protagonismo, quase como um caso de estudo perfeito para esta discussão. O filme parece querer recuperar a tal comédia romântica adulta, ao entrar pelo local de trabalho, onde uma atração inconveniente e até proibida gera um choque  entre o desejo e o profissionalismo. 

Contudo, tudo isto chega dentro da máquina Netflix, que prosseguiu um caminho já tomado antes pela máquina comercial de Hollywood, em que falar de amor, paixão e sexo tem de ser esterilizado e imediatamente transformado num bem consumível. Sobreviveu assim a fórmula, mas esta tem de funcionar para o maior número possível de espectadores, interessando mais explorar a compatibilidade que uma verdadeira eletricidade entre os protagonistas.

Nesse sentido, Office Romance envia sinais mistos, porque apesar de perceber melhor do que muitas comédias românticas recentes, aquilo que o género perdeu ao longo dos tempos, particularmente no que concerne à disposição da malícia e tensão verbal de fazer do desejo um jogo de poder, embaraço e sedução, no momento exato da explosão só sabe responder com comédia, mas nunca romance. Isso mesmo fica explicito quando o filme lança para dentro da sua história fetiches, fantasias e pequenas perversões, mas apenas os usa como combustível cómico, nunca como ferramentas para a exposição de afetos. 

Sabes que estás a falar demais quando “Cruzas a linha abaixo da cintura”. Esta frase é dita por Jennifer Lopez a Brett Goldstein perante uma multidão, e reflete o filme em que estamos e o sintoma geral do género. Tudo aquilo que poderia incendiar a relação encenada, é imediatamente convertido em gag, comentário ou embaraço. O corpo, a sedução e o sexo existem nos diálogos e no pano de fundo, mas raramente no corpo. A química foi assim substituída pelo timing cómico, nunca se encarando o desejo como uma perturbação real para a relação, como se os corpos complicassem o amor.

Jennifer Lopez é Jackie Cruz, a CEO de uma empresa que está habituada a controlar a imagem, os desejos e o espaço profissional que ocupa, enquanto Daniel Blanchflower, interpretado por Brett Goldstein, um advogado londrino que prossegue a sua carreira nos EUA, surge no seu caminho como alguém mais seco e aparentemente deslocado dentro do universo corporativo em que habitam. Será o encontro entre os dois e um fascínio mútuo que serve depois para mover o filme, particularmente a vertente da inconveniência dessa atração.

Com um cinema norte-americano desesperado por não encontrar uma efetiva renovação das suas estrelas, particularmente para os géneros da comédia (onde andam os novos Jim Carrey, Robin Williams e Eddie Murphy?), comédias românticas (onde encontrar a nova Meg Ryan ou Julia Roberts?) e filmes de ação (Tom Cruise e Vin Diesel vão ter de fazer filmes até aos 90 anos), Jennifer Lopez volta a ocupar um espaço frequente no seu currículo.

Misturando glamour, vulnerabilidade e auto-ironia, sempre com um “brilho” de atração latente, Lopez cruza-se com um Goldstein a tentar soltar-se da sua imagem de marca que fez furor em Ted Lasso. Há química, certo, mas esta é sobretudo verbal e rítmica, nunca física e carnal. 

Também os secundários revelam os limites, pois, embora o filme perceba que uma boa comédia romântica precisa de figuras à volta do casal, daquelas que contaminam o romance com humor e desordem, raramente lhes dá espessura suficiente para escaparem à condição de peças ao serviço de uma gag específica. A única excepção, pela recorrência e presença, é Sydney Bloom (Betty Gilpin), a assistente e amiga grávida da personagem de Jennifer Lopez, que se esforça por introduzir uma energia pragmática e concreta, trazendo ao filme alguns dos seus melhores momentos.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira Rosa
paixao-de-escritorio-a-comedia-arrisca-o-romance-recuaHá química, certo, mas esta é sobretudo verbal e rítmica, nunca física e carnal.