Nadine Khan: “Com ‘Abu Saddam’ as pessoas começaram a levar-me a sério”.

(Fotos: Divulgação)

Único filme egípcio na competição à Pirâmide de Ouro no Festival do Cairo, “Abu Saddam” é um objeto raro na cinematografia local, não apenas por ser todo ele construído em torno da personagem que lhe dá o título, e que vive num mundo profundamente masculino que é o da condução de veículos pesados, mas porque na cadeira de realizador encontramos uma mulher, Nadine Kahn. “Não fiz este filme conscientemente ou intencionalmente como forma de afirmação”, explicou a cineasta ao C7nema em entrevista. “Talvez isso estivesse no meu subconsciente, agora que falou nisso, mas sempre gostei de desafios técnicos, mesmo quando era apenas assistente de realização. É isso que me faz feliz num set de filmagens. Existe em mim uma espécie de euforia no que toca a desafios técnicos, gadgets, etc. Uma das coisas que claramente me atraiu era como lidaria com este camião enorme e o mostrava dele no grande ecrã.” 

Filha do cineasta egípcio Mohamed Khan, falecido em 2016, Nadine começou a trabalhar no cinema há mais de uma década, tendo trabalhado como assistente de realização do pai, mas igualmente em algumas produções gigantescas filmadas no Egipto, como “Transformers – Retaliação” (2009). Antes e depois dessas colaborações, ela assinou várias curtas-metragens (algumas das quais passaram por Roterdão) e estreou-se nas longas-metragens em 2012 com “Harag W’ Marag”. “Senti muita pressão no início da carreira, mas comecei muito cedo e logo criei uma forma de estar que levou as pessoas a não pensarem em mim como a filha de alguém ou uma mulher. Tinha 18 anos quando comecei a trabalhar na industria e sempre fui muito maria-rapaz desde a adolescência. De alguma maneira a minha forma de ser levou as pessoas a afastarem-se disso, a verem-me como era e não como parente de alguém”.  

É agora com um thriller repleto de elementos dramáticos, com uma linguagem cinematográfica bem longe do cinema egípcio a que estamos habituados, que Nadine cimenta o seu estatuto de nome a seguir na região, conseguindo, finalmente, segundo a própria, ser levada a sério na sua profissão. “No início as pessoas não me levavam a sério, primeiro porque rio demasiado (risos), depois porque aparentava ser muito nova. Com este filme, as pessoas começaram a levar-me realmente a sério”.

Explicando um pouco a génese deste seu “Abu Saddam”, Nadine remete a ideia a um acidente de viação que vislumbrou numa estrada perto de Alexandria: “Nós, egípcios, estamos habituados a ver muitos acidentes nas estradas (risos), mas neste caso lembro-me claramente da figura do condutor e do acidente. Fiquei sempre com a imagem dele na cabeça e ao longo dos anos a personagem que criei do Abu Saddam foi sendo desenvolvida a partir disto.”

No principal papel encontramos Mohamed Mamdou, que juntamente com a cineasta partiu para uma investigação cuidada em torno destes camionistas que diariamente fazem grande parte da sua vida na estrada. “A minha interação com o Mohamed neste projeto foi bastante boa”, disse Nadine. “Todos os atores têm chaves para lidar com cada personagem que lhes aparece pela frente. Demorou um pouco para conseguir que ele entrasse no modo que desejava, mas mal descobri  os seus ‘botões’ e a melhor forma de o conseguir, trabalhámos muito bem. Ele leu o sexto esboço do guião e filmámos o nono. Entre esses dois momentos, durante ano e meio, fui mexendo no guião e trabalhei com ele e com o Ahmed Dash [ator que interpreta o coprotagonista do filme], separadamente, para explicar o que pretendia. Depois trabalhei em conjunto com os dois, já muito próxima das filmagens. Mas desde o início houve muita investigação sobre esse mundo. Fui aos bares nas estradas, falei com muitos destes camionistas e um deles acompanhou-nos sempre, explicando mesmo ao Mohamed como conduzir aquelas máquinas. Ele ajudou-me também muito  no que diz respeito à linguagem e calão dos camionistas, os termos das peças do carro, etc. (…) Mas acima de tudo, foquei-me sempre na personagem do Abu Saddam, desde a escrita à escolha de lentes com que queria filmar. Tudo o resto, os problemas pessoais e coletivos do país, estão no filme porque fazem parte da sua vida, mas o foco é sempre ele”.

Para filmar este projeto com inúmeros desafios técnicos, Nadine usou dois camiões. Um deles foi usado por Mohamed realmente para conduzir. No outro foi recriada a cabine para os protagonistas interagirem, mas nele o ator não conduzia. “ Era como um mini estúdio (…) O camião era uma das personagens mais importantes e sempre quis mostrar como ele aglutinava as personagens. Filmei todos os detalhes nesse sentido.” 

Após “Abu Saddam”, que nos garante foi filmado com a ideia do grande ecrã, Nadine prepara já uma série para o streaming, a qual vai colocar duas gerações em confronto: “É um coming-of-age sobre um grupo de personagens que acabam o liceu e preparam-se para a faculdade. A série fala da classe média egípcia e como a ideia de não continuar os estudos, por criação de um negócio ou algo parecido, esbarra com os desejos dos pais que ainda não aceitam a ideia de não finalizar os estudos (universitários).”

Quanto a filmes, ela tem um novo em desenvolvimento nos estágios iniciais. Não querendo ainda divulgar do que o projeto trata, Nadine acredita que com ele a sua carreira e o próprio cinema egípcio vão ficar mais fortes e continuar a explosão de novas linguagens e talentos que começou em 2011. “ O cinema egípcio, desde 2011, começou novamente a explodir, especialmente a partir da cena independente. Depois a vertente comercial seguiu essa explosão. Há neste momento muito mais cineastas a mostrarem novas linguagens e novas histórias. Estou muito otimista com o futuro do cinema, pois estas mudança ultrapassaram a revolução, os problemas económicos  que vieram a seguir e os novos tempos”, onde streaming e a pandemia complicaram a vida à 7ª Arte. “As pessoas estão determinadas em fazer filmes sob qualquer circunstância e há muitas vozes, não apenas novas, que vieram à superfície e estão para ficar”.

O Festival do Cairo encerra amanhã, 5 dezembro.

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