Falar do cinema na Arábia Saudita tem sido tradicionalmente falar de Haifaa al-Mansour, a realizadora que abriu uma porta encerrada há muito para as mulheres sauditas, particularmente depois do seu “A Bicicleta de Wadjda” conquistar os festivais internacionais.
Felizmente, o seu trabalho e uma maior abertura do país em relação ao cinema, com o aparecimento de inúmeras salas, começa a apresentar como resultado uma nova geração de cineastas prontas para, também elas, deixarem marca no cinema regional e internacional, como é o caso de Hind Alfahhad, Jowaher Alamri, Noor Alameer, Sara Mesfer, e Fatima Al-Banawi, cuja antologia “Becoming” chegou ao Festival do Cairo com o selo de laboratório do Red Sea Festival.
Apresentado no certame egípcio com pompa e circunstância, onde não faltou uma sessão de gala, esta antologia é composta por cinco pequenos filmes, realizados pelas cinco realizadoras, todas elas acompanhando histórias de mulheres sauditas que “tentam sair dos clichês habituais e da perceção do ocidente sobre elas”, como nos explicaram em entrevista Hind e Jowaher, “produtos” da única universidade de Artes Cinematográficas na Arábia Saudita, dedicado exclusivamente a mulheres.
E se para as duas o nome de Haifaa al-Mansour representou uma força para se iniciarem e seguirem carreira no cinema, existem outras fontes de inspiração, além do apoio das próprias famílias nesse processo de aprendizagem.
No caso de Hind, quer trabalhos em fotografia quer o cinema do iraniano Asghar Farhadi representaram forças que a levaram a optar por este rumo e marcam a sua forma de fazer cinema. “Deixo as mensagens sociais e políticas de forma subtil através das personagens que crio. Não vejo a Arábia Saudita a travar essa minha forma de abordar as coisas”, diz-nos a jovem quando tentamos comparar os problemas de Farhadi em filmar certos temas no seu país, com os que ela potencialmente vai ter de lidar no futuro. “O que me interessa são histórias reais (…) tenho muitas histórias da Arábia Saudita para contar além daquelas que todos conhecem e falam internacionalmente. O meu pequeno filme fala por si e conta uma história no interior da sociedade saudita. (….) Foco-me sempre em mulheres e nas suas histórias e na Arábia Saudita existem muitos detalhes que me interessa abordar além dos clichés. Nós temos muitas similaridades com as mulheres de todo o mundo. Há muitas mulheres que fazem muitas coisas no país além de estarem em casa. Quero também mudar essa perceção do mundo perante o país”.

Tal como Jowaher, que está já a preparar uma longa-metragem em torno de um casal, o qual vai estar no Red Sea Festival em análise para desenvolvimento na sua plataforma dedicada à indústria, Hind espera já filmar em 2022 um novo filme, ”Sharshaf”, também ele uma longa-metragem. Sharshaf pode ser usado como a tela para o cinema, mas também roupagem, tendo no filme a forma de uma personagem por si só. Já premiado em laboratórios de pitching e fóruns de produção, o projeto encontra a sua maior dificuldade em encontrar atores profissionais, especialmente na faixa-etária dos 35 anos, pois devido à ausência de produção audiovisual no país durante décadas, foram muito poucos os sauditas que seguiram a profissionalização nessa área.
O Festival do Cairo prossegue até dia 5 de dezembro.

