Sempre vestido de uma simplicidade realista nos seus procedimentos, o cinema do belga Joachim Lafosse sempre se focou na análise das tensões familiares, com separações, responsabilidades parentais e fronteiras do amor e posse a moverem filmes como Nue propriété (2006), À perdre la raison (2012) e L’économie du couple (2016)

Assinando aquele que define como o seu filme mais pessoal até à data, já que vai buscar à própria infância do cineasta a inspiração, Six Days in Spring (Six jours ce printemps-là), estreado no Festival de San Sebastián, acompanha Sana (Eye Haïdara), uma mãe solteira que, após os planos das férias falharem, leva secretamente os dois filhos gémeos (Leonis e Teodor Pinero Müller) para a vila luxuosa dos ex-sogros na Riviera Francesa, recriando em ficção a experiência de Lafosse de ter passado férias clandestinas na casa dos avós após o divórcio dos pais – numa descoberta precoce da lógica de classe e da exclusão familiar. 

Ao longo de seis dias, alegria e ansiedade convivem num ambiente marcado pela ternura, pela clandestinidade (os visitantes não podem usar a água, a luz, usar a praia habitual) e pelo desconforto social – um exercício de memória com tanto de nostalgia como de terapia, num olhar para o passado como uma marca indelével de amadurecimento.

Se os filmes anteriores do cineasta mergulhavam em crises conjugais com um peso quase sufocante, aqui ele procura um registo mais de ternura e catarse, refletindo não só sobre a violência emocional do divórcio e o que significa “deixar de pertencer” a uma família, mas estudando o ato de omissão, não como uma mentira, mas como proteção pessoal. A isto soma-se a perceção das fronteiras políticas e sociais da pertença, transformando a memória pessoal numa narrativa universal reconhecível.

Isso mesmo sente-se quando ouvimos “Here Comes the River”, do músico Patrick Watson, quando a família, acompanhada por um novo interesse amoroso de Sana, Jules (Jules Waringo), viaja de carro para o Sul de França. O tema serve de metáfora – a partir da água (“o rio”) – como algo que cresce e surge subitamente, como somos muitas vezes arrastados pelas águas turbulentas da vida. Mas no tema musical e no filme, essa água não tem apenas um caracter destruidor; ela também purifica e revela em nós uma resistência esperançosa, lembrando o espectador, através da história desta mulher, que é possível atravessar as tempestades emocionais que surgem do nada e conseguir chegar a bom porto. É isso que acontece com Sana, com a separação do antigo companheiro a claramente a deixar marcas mais profundas que aquelas que palpavelmente são expostas no filme de Lafosse, como as claras dificuldades económicas pelas quais está a atravessar.

Construindo o seu filme a partir de pormenores subtis e gestos mínimos, sempre entre a alegria (das férias) e o medo (de ser apanhado na mentira), o cineasta belga aposta sobretudo no que não se diz e no que se evita fazer, num cenário em que a Riviera se impõe como reflexo de uma classe social mais confortável que agora se perde com a separação de um casal. No final, Six Days in Spring, sempre impulsionado por uma atuação segura e forte de Eye Haïdara, revela-se um adeus a uma forma de vida e o início de uma nova onde já se sentem as marcas da exclusão.

Nesse sentido, o peso estético e político do filme está em plena sintonia com o cinema que Lafosse desenvolve – sempre marcado por um realismo atento às fissuras do íntimo, mas desta vez também à sua reconstrução.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
six-days-in-spring-o-filme-mais-pessoal-de-joachim-lafosse-sobre-familia-separacao-e-pertencaO peso estético e político do filme está em plena sintonia com o cinema que Lafosse desenvolve – sempre marcado por um realismo atento às fissuras do íntimo, mas desta vez também à sua reconstrução.