O cinema da Tunísia tem sido dos mais ativos a revelar o impacto que o Daesh (Estado Islâmico) teve na sociedade e famílias do seu país. Há dois anos, Kaouther Ben Hania levou a Cannes “Four Daughters”, um filme de ficção que também é um documentário, e que seguia de perto Olfa Hamrouni, uma mulher com quatro filhas, mas cujas duas delas – Ghofran e Rahma – “foram levadas pelos lobos” (Estado Islâmico), quando tinham, respetivamente, 16 e 15 anos, em 2015.
Já este ano, na sua primeira longa-metragem, Meryam Joobeur levou à Berlinale o drama “Who Do I Belong“, sobre uma família que vê regressar um dos dois filhos que fugiram para se juntar ao Daesh, revelando-se a complexidade psicológica do estado desse homem e também do seu pai e mãe, que o recebem de volta de formas bem distintas.
Chegamos agora a Locarno e é a vez de Lotfi Achour mais uma vez falar dos “lobos”, materializados num número não especificado de terroristas que degolam, nas montanhas, um rapaz de uma pequena aldeia, traumatizando o primo deste, que escapou à morte para entregar o recado (a cabeça) ao “mundo”: aquela área onde os miúdos foram apanhados, não pode ser visitada por ninguém.
Inspirado em acontecimentos reais e profundamente enraizado num contexto social cruel, “Les Enfants rouges” foca-se principalmente em Achraf (um extraordinário Ali Hleli), um jovem pastor sobrevivente com apenas 13 anos, e à sua capacidade de superar a morte traumática do primo, enquanto paralelamente nos mostra um país incapaz de controlar as suas fronteiras, deixando várias zonas do território entregues a si mesmo.
Sentindo-se muitas vezes como um western, onde a montanha Mghila, região extremamente pobre e isolada no noroeste da Tunísia, mas que conserva a única água da região que atrai a pastorícia, é ocupada por um grupo hostil, o filme viaja frequentemente por terrenos da psique na exploração das relações humanas de uma comunidade, mas igualmente na procura individual das memórias de um jovem em “estado de choque“. É que a família do falecido organiza uma expedição ao local do crime, com o intuito de recuperar o corpo e poder executar um funeral digno, necessitando que o pobre Achraf lhes indique o caminho.
Tenso, esteticamente irrepreensível e com um bom desenvolvimento das personagens, “Les Enfants rouges” mostra mais uma vez que o “trauma” do Daesh paira no ar da Tunísia, deixado marcas que dificilmente vão sarar nas próximas décadas.




















