Vencedores do Globo de Cristal em Karlovy Vary com The Father, em 21019, a dupla bulgara Kristina Grozeva e Petar Valchanov regressam ao festival com Black Money for White Nights, uma tragicomédia que volta a fazer das falhas uma porta de entrada para um retrato mais vasto sobre uma sociedade atravessada pelo período soviético e pela democracia, presa no processo entre sonhos, desejos e pequenos lapsos éticos.
Marina (Tanya Shahova) e Georgi (Ivan Savov), um casal de sessenta anos, passou anos a juntar dinheiro vindo de pequenos subornos, ele numa estação de comboio a deixar passar a retirada de combustível, ela enfermeira, para concretizar o sonho de viajar até São Petersburgo e ver as noites brancas. Todo o dinheiro que juntaram foi entregue a uma agência de viagens que organiza a rota dos seus sonhos, mas a invasão russa da Ucrânia e o desaparecimento de todos os vestígios da agência destroem esse plano. Porém, o verdadeiro colapso do casal não é financeiro, mas sim o desaparecer da ilusão de que se pode viver dentro da corrupção sem que ela acabe por contaminar o amor, o casamento e até os sonhos.
Habituados a lidar com pequenos (e grandes) dilemas e hipocrisias morais, bastando lembrar The Lesson (2014), onde uma professora que tenta dar uma lição moral aos alunos acaba esmagada por uma crise financeira, ou Glory (2016), em que um trabalhador ferroviário honesto é triturado pela máquina burocrática e mediática depois de encontrar uma grande quantia de dinheiro, Grozeva e Valchanov trabalham esta questão com a sua precisão habitual, usando personagens comuns, em situações aparentemente banais, que transformaram as mentiras e compromissos corruptos assimilados como normalidade.
Esteticamente, há no filme uma enorme austeridade, ainda que se dê atenção particular à luz, aos espaços e ao contraste entre o preto (o dinheiro sujo) e o branco (as noites de São Petersburgo) sugerido pelo título. Porém, Black Money for White Nights não funciona a preto e branco na definição de heróis ou vilões, mas numa verdadeira escala de cinzentos que atravessa todas as personagens. A desgraça que se abate sobre Marina e Georgi chega até nós com uma dimensão quase cruel, mas também com um sentido de justiça moral, como se todos os pequenos compromissos, mentiras e atos de corrupção quotidiana acabassem finalmente por cobrar o seu preço.















