Qualquer espectador que tenha assistido a Festen (1998), de Thomas Vinterberg, no final dos anos 1990, não só ficou com a consciência de que havia um novo movimento de cinema a circular na paisagem cinematográfica dinamarquesa, o chamado Dogma 95, como percebeu que, quando uma festa ou qualquer celebração chegava ao cinema, podia ser abalroada por um dos convidados. Ainda antes de vermos The Guest, a primeira longa-metragem de Mads Mengel, que estreou em Karlovy Vary na competição pelo Globo de Cristal, a sinopse do filme despertou-nos logo o alerta. Além do mais, Trine Dyrholm, uma das atrizes europeias mais marcantes da sua geração — basta lembrar o seu trabalho de Bungalow (2002) a Rainha de Copas (2019) —, faz parte do elenco de The Guest e esteve também no filme de Vinterberg.

Mas, mesmo que nunca tenham visto Festen, nem tenham lido a sinopse deste The Guest, os primeiros segundos do filme, com um carro em grande velocidade cuja fivela do cinto de segurança batuca no chão a cada metro, associada a uma banda sonora de acordes graves e de intensidade própria do cinema de suspense, dão-nos logo uma sensação de más vibrações e de que algo grave vai acontecer num encontro familiar que tinha tudo para ser uma celebração.

No centro do filme está Karl, interpretado por Simon Bennebjerg, um homem que tenta manter uma vida estável depois de uma infância marcada pela instabilidade. Numa reunião familiar que servirá de “batismo” para o seu filho, a chegada de Vibeke, a sua mãe, vivida por Trine Dyrholm, perturba o seu frágil equilíbrio, levando primeiro Karl a confrontar a sua irmã, Rikke, interpretada por Josephine Park, e depois a mãe, suspeitando que esta não anda a tomar a sua medicação para um problema do foro psiquiátrico que nunca é esclarecido.

Apesar de ser a sua primeira longa-metragem, Mengel já conta com uma série de curtas e trabalhos em séries de televisão, usando essa experiência para, juntamente com o argumentista Christian Bengtson, ir escondendo o jogo e prolongar a tensão. Por isso mesmo, o filme ganha força ao não nomear a doença de Vibeke e ao manter em aberto a origem das suas atitudes. Serão estas apenas a expressão de uma personalidade livre, feliz por estar presente naquele momento, ainda que incapaz de se submeter à rigidez protocolar que o filho impõe à cerimónia, ou o resultado da ausência de medicação que certamente levará a que as suas atitudes se tornem cada vez mais excêntricas? É nessa ambiguidade que Mengel instala o conflito, deixando o trio de atores discutir, espernear e confrontar-se em diálogos de grande intensidade, sustentados por planos longuíssimos, ora fixos, ora móveis, alternando planos médios, close-ups e planos de detalhe, por vezes em sequências de grande fôlego que colocam o espectador na ponta da cadeira. Nisto, a banda sonora de Lasse Aagaard nunca surge em cena sem impacto, acrescentando uma camada de tensão a tudo o que ouvimos e vemos.

O certo é que, durante toda a duração do filme, e muito sustentado na precisão do texto, na ambiguidade das situações e nas interpretações marcantes do trio de atores, The Guest é um poço de tensão de enorme imprevisibilidade, expondo raiva, medo e angústia à flor da pele de uma família que, no final, esconde um enorme amor de uns pelos outros.

O primeiro grande filme a sair de Karlovy Vary.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
the-guest-trine-dyrholm-incendeia-uma-celebracao-familiarThe Guest é um poço de tensão de enorme imprevisibilidade, expondo raiva, medo e angústia à flor da pele de uma família que, no final, esconde um enorme amor de uns pelos outros.