Baseado no livro Canção Doce, A Ama Perfeita chega aos cinemas esta semana
Com uma extensa carreira como atriz, Lucie Borleteau surpreendeu em 2015 com a sua estreia – como realizadora – em longas-metragens. Com Fidelio, l’odyssée d’Alice, estreado no Festival de Locarno, a francesa arrecadou o prémio Europa Cinemas Label, iniciando uma carreira no outro lado das câmaras que a conduziu a esta adaptação do livro Canção Doce, de Leila Slimani.
Vencedor do prémio Goncourt em 2016, Canção Doce foi desejado por inúmeros cineastas franceses. Entre eles encontrava-se Maiwenn (Polissia; Meu Rei) e Lucie Borleteau, que acabaria por executar o filme de suspense com a atriz Karin Viard no papel de uma ama que começa a revelar-se uma peça central e misteriosa numa família constituída por um casal e os dois filhos.
Um filme duro, muitas vezes sinistro, que Borleteau chega mesmo a descrever como “um objeto de horror que se desenrola durante o dia“. Foi com ela que nos encontramos em Paris e falamos da experiência de levar este aclamado livro aos cinemas, agora com o nome de A Ama Perfeita.
Inicialmente o livro estava para ser adaptado ao cinema pela Maiwenn. Como chegou até si?
Bem, na verdade eu falei com a autora, Leila Slimani, quando o livro foi lançado. O que aconteceu é que o livro suscitou um grande interesse por parte dos cineastas franceses e todos fomos ter com a Gallimard [grupo editorial] e dizer: “Olá, bom dia, estou interessado em adaptá-lo“.
Fui sozinha, não tinha ido por casting, nada. Senti que houve com a Slimani uma boa conexão e o que lhe disse foi que conseguiria misturar algo de muito realista e naturalista – que fazemos muito bem em França, como o Claude Chabrol e o Maurice Pialat – com um pouco do teor de “conto” que podemos enquadrar no cinema de género, no fantástico. Eu não queria escolher apenas uma das abordagens e, para mim, o ideal era mesclar as duas. Depois desta espécie de grande casting com o editor, no final chegou uma equipa com a Karin Viard, que queria interpretar esta personagem.
Ela tinha um produtor que tinha uma realizadora com quem trabalhava, que era a Maiwenn. E foram eles que avançaram para a adaptação do projeto ao cinema. Porém, a certo momento, a Maiwenn retira-se de cena, pois neste momento da sua carreira queria se dedicar a projetos mais pessoais. Não sei inteiramente as razões dessa saída, mas agradeço (…) entrei eu e foi genial, pois nunca tinha trabalhado com uma atriz com o estatuto da Karin Viard em França. Ela é uma grande atriz e é daquelas que inspira confiança no espectador. Depois de ser escolhida, comecei a trabalhar com o argumento que o Jérémie Elkaïm tinha escrito para a Maïwenn. Reescrevi com ele tudo e filmamos tudo muito rapidamente.
A estrutura temporal do livro foi alterada em relação ao filme, há uma aposta cronologicamente inversa. Acha que foi uma boa opção essa mudança?
Sim, sem dúvida. Mas levei muito tempo a tomar essa decisão [risos]. Sou uma grande indecisa. Trabalho muito com base nas experiências. Há coisas que posso ver escritas, como os crimes e a sua forma de ocorrerem, mas que para mim era um tabu mostrar isso no cinema. Num livro o leitor pode ler isso e ser livre de fazer uma pausa, imaginar o que quiser, de fechar o livro. Mostrar isso assim no cinema, não é de todo o meu estilo, aquilo que faço. Foi na última versão do guião, na montagem, que experimentamos fazer as coisas daquela maneira.
Há muita gente que vai ver o filme e não leu o livro. Por tal, não sabem o que vai acontecer. Desta forma eles vão sentindo que algo grave vai acontecer, mas não sabem o quê, o que torna tudo mais difuso e profundo.
E como foi o seu trabalho com os atores? Desenvolveu com eles as personagens ou entregou-lhas para replicarem o que estava no guião?
Depende, em particular da cena em questão. No caso dos pequenos atores, em especial do bebé, filmamos quase num registo documental. Mas o que era genial nesse bebé é que ele interpreta muito bem todos os momentos, pois está sempre a 100% na exposição das sensações que queríamos: o medo, a alegria. Claro, e pela minha própria experiência, sabia que antes ou depois da sesta ele estaria de bom ou mau humor. Organizamos as filmagens em torno disso, também porque a lei francesa é bastante restrita no que toca a pequenos atores. E ainda bem que é assim. Tinhamos 40 minutos no set com ele.
Com a menina foi igual, ela é que geria o nosso tempo, pois só a podiamos ter por 3 horas. Ela tinha consciência que estava a fazer um trabalho de atriz, que tinha uma personagem. Eu nunca a fiz decorar o guião. Eu dizia-lhe as coisas e ela repetia para si mesma, o que trouxe naturalidade, ao contrário de impor-lhe o texto tal e qual estava no guião.
Quando passamos para os adultos, eles eram atores muito bons, que escutam e com uma grande capacidade de se adaptarem, por exemplo, ao que os mais pequenos exigiam. A Karin Viard é excelente e nunca se coloca numa zona de conforto. Ela preparou a personagem durante um ano. E trabalhar com jovens não é fácil.
Pode falar um pouco da estética do filme, da fotografia por exemplo? Durante todo o filme é criada uma atmosfera em que permanentemente estamos conscientes de que algo de grave se vai passar…
A fotografia é bastante colorida e, se formos a ver, tudo é bastante luminoso, mas o interessante é que estamos num filme onde o horror vai acontecer em pleno dia. Por isso, podemos dizer que não estamos dentro dos códigos dos filmes de terror. Aqui o que faz o horror são as crianças, as cores cintilantes, a luz do sol, etc.
Para além disso, existia o desafio de estarmos num espaço único de decoração – que é o interior do apartamento [da família]. Claro que os movimentos da câmara foram estudados também em função dos miúdos, e mudamos às vezes a forma de filmar por razões práticas. Por exemplo, há um momento em que estão a brincar e usamos câmaras portáteis, pois não sabíamos o que eles iam fazer. Mas a maioria do tempo pensamos num estilo de filmar próximo do cinema de género, do horror. (…) O que é interessante é que estamos a filmar o quotidiano, na nossa casa, supostamente em segurança, mas um pequeno truque, qualquer coisa, muda isso tudo. Na verdade, não vemos nada de verdadeiramente horrível por aqui, mas existe sempre uma sensação de angústia. Aqui também entra em cena a importância do som. Fizemos um trabalho com o compositor Pierre Desprats que resultou numa banda-sonora de continuidade, mas com “derrapagens” com sons muito muito simples. Quase que sons de filmes de “feitiçaria”, até porque a personagem da Louise (Viard) inspirava medo. Mas ao mesmo tempo temos algo de teórico e modelar. Não queria de todo que tivéssemos composições elaboradas, e não falo em termos qualitativos, mas sim na escolha e recurso a instrumentos simples.
A Leila Slimani já viu o filme? O que ela achou dele?
Sim, já viu. Sentiu medo (risos). Ela ‘passou-se’ e pensou como foi capaz de escrever isto [risos]
[risos] Mas isso é ótimo, é uma boa crítica [risos]
Sim, sem dúvida. É ótimo.
Tem algum novo projeto?
Neste momento estou ainda no início, mas em todo o caso tenho a certeza que quero fazer algo bastante alegre [risos]. Algo para mudar o tom. Curiosamente, um filme que terá uma tonalidade sombria, mas será bastante alegre.
Uma comédia?
Não, acho que isso seria difícil de fazer. Estilo, uma comédia com gags, piadas e isso. Não me vejo a fazer isso.

