FEST arranca em Espinho com casa cheia e cinema político na abertura

(Fotos: Divulgação)

Apesar de já ter tido atividades no sábado, dia 20 de junho, o FEST – Novos Realizadores | Novo Cinema, que decorre em Espinho, teve oficialmente ontem a sua sessão de abertura, marcada pela antestreia nacional de Cartas Amarelas, de İlker Çatak, vencedor do Urso de Ouro na Berlinale 2026.

Perante uma sala lotada, o público história de um casal de artistas turcos que é confrontado com a pressão política, a censura e a vigilância estatal, num dispositivo em que “Berlim funciona como Ancara” e “Hamburgo como Istambul”. Com essa gímnica, Çalak desloca a discussão sobre o autoritarismo contemporâneo para democracias formalmente consolidadas.

“Quero fazer cinema político porque vejo um mundo que precisa de consciência política”, disse Çatak ao C7nema na Berlinale, onde há dois anos deu nas vistas com A Sala dos Professores (2023). “Estamos constantemente distraídos, a consumir vídeos gerados por inteligência artificial, a fazer ‘doomscrolling’. Isso não é saudável.”

Girl marcou a estreia de Shu Qi na realização

A Competição Lince de Ouro, dedicada às longas-metragens, também arrancou ontem com Girl, filme de estreia da atriz Shu Qi na realização. O filme, que toca no tema da violência doméstica, reflete sobre gerações e uma época de transformação, ao mesmo tempo que aborda a perda, o luto e o exílio, a partir da história de uma jovem introvertida que cresce num silêncio carregado de desespero.

Famosa por prestações em filmes de Hou Hsiao-hsien como Millennium Mambo (2001), Three Times (2005) e The Assassin (2015), Shu Qi explicou no último Festival de Veneza que, nesta primeira incursão na realização, quis retratar uma sociedade que conhece bem: “Nos anos 80, Taiwan estava em transformação, em plena industrialização. Lembro-me de ver o céu sempre cinzento, como se uma névoa cobrisse tudo. As pessoas, incluindo os meus pais, corriam em busca de uma vida melhor, mas muitas vezes esqueciam-se de olhar para dentro de casa. Depois mostro a transição para o final dos anos 90: a cidade já construída, o céu azul, sinais de um novo ciclo. E também mulheres mais livres, mais educadas, menos dependentes do pai ou do marido. O meu objetivo foi captar estas mudanças através das relações familiares.”

A corrida ao Lince de Ouro de ficção prossegue hoje com A Fading Man, de Welf Reinhart, um drama que acompanha de perto a demência, a partir da história de um homem que reaparece inesperadamente na vida da sua ex-mulher, várias décadas após o casal se ter separado. “O filme começou com uma ideia. Vi um meme no Instagram em que alguém escrevia que o avô se tinha esquecido do divórcio da mulher devido à demência. Achei isso muito interessante e comecei imediatamente a investigar o tema”, explicou Reinhart ao C7nema durante o Festival de Roterdão. “Fiz formação como cuidador de pessoas com demência e depois trabalhei como voluntário com dois homens que sofriam dessa condição e que estavam apenas nos seus cinquenta anos. Fiz isso durante cerca de um ano, e muitos dos encontros que tive influenciaram diretamente o guião, acabando por me levar à sensação de que queria fazer um filme sobre este tema.

Hoje também é exibido o documentário Silent Flood, um retrato lírico de uma comunidade religiosa na Ucrânia que oferece uma nova perspetiva sobre a guerra.

O FEST prossegue até 28 de junho.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/72bw

Destaques