Rodrigo Areias leva NOVA ’78 e a contracultura de 1978 às salas portuguesas

Estreia a 30 de julho nos cinemas e na Filmin

Depois de uma consagradora passagem pelo 78.º Festival de Locarno, o ensaio memorialístico em formato documental NOVA ’78 traz Rodrigo Areias de volta às salas portuguesas. Num dos primeiros encontros do C7nema com o realizador de Guimarães em terras helvéticas, em 2021, quando esteve em Locarno com A Távola de Rocha, fez uma síntese da sua ambição artística. “Prefiro produzir pessoas a filmes. É melhor produzir maus filmes de boas pessoas do que bons filmes de más pessoas. Quando produzo, luto para oferecer aos artistas com quem trabalho um espaço de liberdade criativa”, disse.

A centelha libertária que iluminava o seu olhar à frente das operações da Bando à Parte, a sua produtora, também brilha no seu trabalho como cineasta, prolífico e inquieto: “Há quase 30 anos, quando me interessei pela música, Portugal não era um lugar onde o sonho de viver da arte parecesse viável, sobretudo para alguém que vem de uma cidade pequena, como Guimarães. Nesse sentido, os meus sonhos de me tornar músico e viver do rock’n’roll não se concretizaram. Mas percebi, por outros caminhos artísticos, que esses sonhos não eram assim tão inalcançáveis. No caso, o caminho do audiovisual. Decidi então mudar de vida e fazer cinema. Tocava guitarra há muitos anos e foi uma experiência importante, porque destruiu uma série de mitos. Nos anos 90, tinha uma banda chamada Blue Orange Juice, algo parecido com os Sonic Youth. Depois, toquei com vários outros músicos, criando ligações. Estou no cinema profissionalmente desde 2001. Foi uma escolha em que mantive o interesse por uma expressão artística de investigação”, contou-nos numa conversa anterior com o C7nema.

A conversa atual centra-se no trabalho de arquivo de NOVA ’78. Feito em parceria com o Reino Unido, o filme mostra imagens nunca antes vistas da lendária Nova Convention, um evento de três dias realizado na cidade de Nova Iorque entre 30 de novembro e 2 de dezembro de 1978. Concebida como uma homenagem ao escritor William S. Burroughs (1914–1997), a “convenção” incluiu seminários, atuações musicais, leituras e performances. Nela participou uma mistura singular de académicos, editores, escritores, artistas, roqueiros e discípulos da contracultura. O evento teve um pequeno contratempo: os organizadores anunciaram a presença de Keith Richards, o que fez esgotar os bilhetes. Contudo, o cancelamento de última hora de Richards provocou alguma instabilidade entre o público.

Na entrevista que se segue, o artista por detrás de Hálito Azul e 1960 explica o seu processo criativo.

‘NOVA ’78’ conta com a realização de Rodrigo Areias e Aaron Brookner

De que forma esta nova longa-metragem carrega a sua visão mais pessoal sobre o papel estético da memória no discurso fílmico?
O cinema como espaço de memória é uma constante no meu trabalho, quer seja como realizador, quer seja como produtor. Quando faço um film noir ou um western, ou até um filme de época, como O Pior Homem de Londres, isso está patente. No caso específico do meu filme 1960, existia uma viagem cinematográfica em cima de um diário de bordo do arquitecto Fernando Távora e os seus escritos. Em NOVA ‘78’ a voz é de William S. Burroughs, um dos grandes escritores e propulsores da Beat Generation. Ele é uma absoluta referência para mim, e para a geração retratada no filme, que por sua vez é ainda mais directamente uma influência cultural. Por exemplo, vemos no palco John Cage e Merce Cunningham ou Patti Smith ou Laurie Anderson, mas, no público, reconhecemos Thurston Moore dos Sonic Youth ou John Lurie dos Louge Lizzards, que por sua vez é o técnico de som deste arquivo.

Como é que os arquivos de “NOVA ’78” chegaram até si? O que representa um arquivo enquanto objeto fílmico?
O arquivo chegou-me através do seu detentor, Aaron Brookner, correalizador do filme. Na verdade, o Aaron já trabalha os arquivos do tio, Howard Brookner, há mais de uma década, e eu já conhecia parte deles. Em janeiro de 2022, quando pensavam já não haver mais nada para descobrir, surgiram mais 40 rolos de película nunca antes vistos. O Aaron ligou-me logo a convidar-me para participar neste projeto. Fiquei naturalmente muito entusiasmado e fizemos a recuperação de parte desse arquivo em Guimarães, bem como a montagem de imagem e som.

O Brasil tem visto filmes seus em série, como o recente Cinco da Tarde, em que produziu o realizador Eduardo Nunes. Antes vieram O Pior Homem de Londres e Não Sou Nada. Como se processa o vosso modo de criação e o que o leva, recorrentemente, a apostar em parceiros como Edgar Pêra como voz autoral?
A minha relação com o Edgar já tem 26 anos de trabalho, cumplicidade e amizade. Estamos neste momento em fase de montagem da sua próxima longa-metragem, Guerrilha no Asfalto. O nosso processo de trabalho é de grande proximidade, e considero que o meu papel enquanto produtor é garantir que uma voz tão fora do comum como a do Edgar tenha liberdade criativa para criar como lhe apetece. É esse o meu grande objetivo: proporcionar-lhe as condições para que, enquanto artista, possa fazer o que deseja criativamente. Sei que é uma luta utópica no mundo atual, mas é precisamente essa a função da arte.

Como você vê o mercado português hoje, dento do cenário europeu? Qual é o lugar do cinema português na indústria audiovisual da Europa?
O cinema português, por conta de suas fontes de financiamento, é capaz de manter uma garantia autoral, mesmo sem uma garantia comercial. É uma lógica de financiamento vinculada ao Ministério da Cultura. Isso proporciona que o cinema português possua essa liberdade. Hoje, existe cada vez mais um cinema comercial em Portugal, mas ele ainda representa uma porcentagem menor de nossa produção.

Quais são os novos projetos enquanto realizador? E enquanto produtor?
Como realizador, estou a finalizar um novo documentário filmado em Super 8mm, centrado nas tradições orais da periferia europeia, com gravações na Islândia, Lapónia, Ucrânia (durante a guerra), Sardenha e Portugal. Entretanto, já estou a preparar a minha próxima longa-metragem de ficção, intitulada Balada de Prata, uma adaptação de dois contos de Gonçalo M. Tavares, com Aki Kaurismäki como produtor associado, que filmarei no próximo ano entre a Ucrânia e Portugal. Como produtor, temos mais de duas dezenas de filmes em produção. A lista é longa e inclui também coproduções com o Brasil.

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