Presença regular no cinema francês, com destaque para filmes como J’accuse – O Oficial e o Espião ou Corta!, Grégory Gadebois assina em Os Miseráveis: A História de Jean Valjean uma das suas prestações mais exigentes, não apenas pelo esforço físico requerido — o ator perdeu 30 quilos para o papel —, mas sobretudo pela forma como capta o sofrimento e a dor de uma personagem nascida em Os Miseráveis, de Victor Hugo.
Mais do que uma adaptação direta do romance de Victor Hugo, Os Miseráveis: A História de Jean Valjean foca-se no percurso interior de Jean Valjean, um homem marcado pela vida, pela prisão e pelas injustiças, que caminha por entre a raiva, a culpa e a possibilidade da bondade, num verdadeiro limbo moral.
Foi em Paris que nos sentámos à mesa com o ator que reencontrou o cineasta Eric Besnard (Delicioso, Les Choses simples e Louise Violet) pela quarta vez. Com ele falamos sobre a preparação física, da ética e da atualidade persistente da obra de Victor Hugo.

Qual era a sua relação com Jean Valjean antes de fazer o filme?
Em França, toda a gente conhece Os Miseráveis. O meu primeiro contacto foi quando tinha dez anos, talvez 11, talvez nove, na escola. A professora mostrou-nos a versão de Os Miseráveis realizado pelo Robert Hossein, com o Lino Ventura.
Por isso, para mim, Jean Valjean era Lino Ventura, Javert era Michel Bouquet e Thénardier era o Jean Carmet. Era assim. Depois descobri, anos mais tarde, vi também outras versões. Mas, para mim, a primeira foi a de Lino Ventura. Sem opinião artística, sem nada disso. Era apenas o olhar de uma criança.
Como se preparou para o papel? O realizador disse-nos que este era quase um filme bíblico.
Isso é a visão dele. Eu perdi 30 quilos. Isso ocupou muito tempo, ocupou todo o espaço mental da preparação.
Depois, Jean Valjean era bastante claro para mim. O grosso da preparação foi perder peso. A relação com a raiva, com a cólera, era bastante evidente. O caminho para a bondade passava muito por perder peso.
Foi mais difícil trabalhar a culpa original ou a redenção, a bondade?
Nenhuma das duas. Havia aquela coisa de uma espécie de bola de ódio e de raiva que sai da prisão. E todas as pessoas que ele encontra confirmam-no nesse lugar. No fundo, ele está numa posição em que devolve às pessoas aquilo que sente que elas querem dele.
Dizem-lhe constantemente: “Tu és o mal, tu és mau, tu és violento.” Então ele devolve essa imagem. E acaba por se tornar nisso. No fundo, tornamo-nos aquilo que as pessoas querem que sejamos, até ao momento em que o bispo lhe estende a mão.
Primeiro, isso surpreende-o. E gosto da ideia de que seja uma escolha. É uma escolha do bispo ajudá-lo e confiar nele. E também é uma escolha de Jean Valjean seguir, no fim, o caminho da bondade. Gosto dessa ideia: que temos sempre escolha, seja qual for o nosso passado, seja o que for que tenhamos vivido. Mesmo que tenhamos nascido maus, podemos sempre escolher ser bons, escolher o melhor caminho.
Ele é disciplinado por uma ética. Gosta disso?
Sim. Acho importante ter uma noção de bem e de mal. Sim, gosto da ideia de ter uma ética.
Há uma cena no filme com uma criança e uma moeda, que talvez seja a mais forte no reflexo do momento da transformação.
Sim, porque há sempre uma diferença entre compreender intelectualmente uma coisa e senti-la verdadeiramente. Nem sempre acontece no mesmo momento. Podemos intelectualizar algo, dizer: “Está bem, percebi.” E depois, noutro momento, percebê-lo de verdade. São duas coisas diferentes. Podem passar anos entre esses dois momentos. Mas, sim, essa cena é muito importante.
Como escolhe os papéis? Pelo argumento? Pelo realizador?
Neste caso, foi pelo Éric. Este é o nosso quarto filme juntos. Eu sabia que ele estava a escrever Jean Valjean, talvez não para ele, talvez para outro realizador. Depois, um dia, disse-me que o ia realizar ele próprio.
No início, tinha-me proposto o papel do bispo, do padre, do Monsenhor. Depois mudou. Adoro a ideia dele me ter visto nos dois papéis. É genial, porque significa qualquer coisa. Para um ator, quanto mais coisas pudermos interpretar, melhor.
Gosto de trabalhar com o Éric, gosto das personagens que ele escolhe, gosto da escrita dele. E, quando nos propõem interpretar Jean Valjean, ficamos contentes.
Acha que precisamos de Jean Valjean no mundo de hoje?
Sim. É curioso, porque acho que esta história continua muito atual. Foi escrita há mais de um século, e isso não é propriamente tranquilizador em relação aos seres humanos.
Trabalha muito para cinema. O cinema é o seu grande amor?
Existe também o teatro. Gosto muito de representar no cinema. Também gosto de streaming. Acho que as pessoas vão ao cinema e também veem coisas em streaming. Uma coisa não é incompatível com a outra. Eu vejo muitas coisas em streaming. Talvez não devesse dizê-lo, mas tenho sempre uma série para ver. É confortável: estou em casa e vejo. Mas também gosto de ir ao cinema. Gosto das duas coisas.
No fundo, gosto de representar. Gosto de interpretar personagens. O teatro ocupa mais tempo, faço menos, e há o medo de palco. No teatro tenho medo, é difícil.

Há algum papel ou personagem que tenha feito e que seja o seu preferido?
Jean Valjean é bonito. Gosto muito da personagem que fiz com László Nemes, em Orphan. Mas na verdade gosto de todos. Gostei da minha personagem em Corta!, de Michel Hazanavicius. Não sei porquê, mas gostei muito daquela personagem. Também gostei do comandante Henry em J’accuse – O Oficial e o Espião. Era mau, mas eu gostava dele na mesma.
Gosto de todas as minhas personagens. Não me arrependo de nenhuma. Gostei de as ter feito, de as ter trabalhado. Também fiz um autista num filme chamado Une place pour Pierrot, e gosto muito dessa personagem.
Às vezes, há personagens que fazemos por causa de um realizador. Houve uma personagem que adorei fazer e que fiz por causa do realizador. Se não tivesse sido ele, teria dito que não. E, no fim, foi bom fazê-la. Por isso tento manter essa abertura. Não sei bem explicar como acontece, mas não me arrependo de nenhuma. Gosto de todas.
Que projetos tem agora? Falou de uma série.
Sim, uma série com Dany Boon, sobre um clube de bikers [Johnny Biloute], no norte de França.
E gosta de motas?
Sim, já andei muito de mota.
Tem também novos filmes para estrear?
Sim, dois. Há um filme de Daniel Auteuil chamado La troisième nuit.
Já tinha trabalhado com ele?
Sim. No outro filme, era mau. Este passa-se durante a Segunda Guerra Mundial. E há também o Orphan, de László Nemes
Quando entrei aqui na sala para falar consigo, a primeira coisa que me disse é que tinha estado na Golegã. Ficou com boas memórias?
Gostei muito da Golegã. É um sítio muito bonito. Andava de bicicleta por lá, embora fosse preciso ter cuidado com os carros. Em Portugal, andar de bicicleta é perigoso. Mas eu tinha a minha bicicleta e adorava. Estávamos alojados numa herdade e guardei uma excelente memória. Até fiquei com a morada e pensei: “Hei de voltar.”
Muitos atores franceses parecem querer ir viver para Portugal.
Sim, tenho amigos que foram para Portugal. É verdade. Mas é longe. Eu gosto de França.






