“Quero mostrar a liberdade de envelhecer”, diz Maryam Touzani sobre “Calle Malaga”

(Fotos: Divulgação)

Uma casa, uma rua, uma cidade podem tornar-se marcas profundas da identidade, coladas à nossa pele e inerente ao nosso ser. É a partir desse princípio que nasce o novo filme de Maryam Touzani, Calle Málaga, centrado na história de Maria Ángeles, uma mulher de 79 anos que vive desde sempre na “Rua Málaga”, na medina de Tânger, e que se vê pressionada pela filha — enfermeira em Madrid — a vender a casa para resolver problemas financeiros.

A rua e a casa não são apenas coordenadas geográficas, mas camadas que transportam memórias que respiram (e transpiram) na protagonista. A Calle Málaga existe, a avó de Touzani viveu ali durante anos, e a personagem carrega essa mistura cultural herdada pela própria realizadora: raízes espanholas, corpo e alma marroquinas. A casa que habita é mais do que cenário; é um organismo vivo. “O apartamento é uma personagem”, disse a realizadora ao C7nema, no Festival do Cairo. “Os objetos, como um velho gira-discos que se torna central no filme, quase se veem, quase respiram. Viram cinquenta anos da vida dela.” Por isso Touzani quis filmar num apartamento real, no coração da cidade antiga, para que se sentisse a respiração de Tânger — e da própria Maria Ángeles, interpretada por uma Carmen Maura em estado de graça.

É nesse espaço carregado de sentido que nasce o conflito. A filha vive num ritmo de sobrevivência diária, esmagada pelo custo de vida, pelo trabalho e pelos filhos. Para ela, a casa é património, investimento, escape possível ao sufoco financeiro. Com a propriedade em seu nome, decide vendê-la contra a vontade da mãe. Para Maria Ángeles, é o oposto: aquele apartamento é o centro da sua vida emocional. Touzani sublinha que lhe interessava explorar essa fratura geracional: “Não é sobre culpar nenhuma das duas mulheres. É sobre compreender cada uma na sua realidade.” A modernidade que exige eficiência económica choca com a fidelidade visceral ao lugar que moldou quem somos. “Para a Maria Ángeles, Tânger é o seu pequeno paraíso. Não precisa de mais. Fala com os vizinhos, vê amigos de décadas, o sol brilha. Há uma douceur de vivre e uma ligação humana que ainda existe ali. Nas grandes cidades, compras tudo online, já não encontras o merceeiro. Essa ligação humana desaparece. Em Tânger, pelo menos em certas zonas, ainda existe. Tenho alguma nostalgia disso”, explica a realizadora.

Carmen Maura entregou-se à personagem com a mesma busca de verdade que orienta Touzani. Falante de espanhol desde a infância, aventurou-se agora no seu primeiro filme nessa língua. Instalou-se em Tânger semanas antes das filmagens, absorvendo sons, cheiros e a energia da rua e do apartamento. À semelhança do que se viu, por exemplo, em O Último Azul, de Gabriel Mascaro, Touzani queria mostrar um envelhecimento livre, cheio de desejo e humor — e Maura aceitou enfrentar tabus. Como recorda o produtor Nabil Ayouch, houve um momento em que a atriz perguntou: “Tenho mesmo de ficar nua?” Touzani respondeu que não se tratava de nudez, mas de alma — da liberdade de uma mulher que, no fim da vida, recusa encolher-se perante convenções. “No início estava assustada. Nunca tinha feito isso em toda a carreira. Fomos a Madrid falar com ela. Explicámos que sim — não era gratuito. Era essencial para o que queríamos expressar: a liberdade que vem com a idade, deixar-se ver, afirmar ‘isto sou eu’. Ela percebeu e aceitou. No final, sentiu que era empoderador, que estava a defender algo.

A realizadora sente uma necessidade profunda de representar a velhice de forma diferente da que domina o cinema: “Existe uma enorme injustiça no modo como a velhice é apresentada. Há expectativas que não correspondem ao que desejamos à medida que envelhecemos. Quero mostrar a liberdade de envelhecer conforme sentimos, não conforme a sociedade exige.” Maria Ángeles liberta-se: “Torna-se mais consciente do corpo, da sexualidade, do prazer.” E Touzani insiste na urgência de dar visibilidade a corpos envelhecidos: “O cinema costuma esconder corpos envelhecidos. Eu quis mostrar que envelhecer é belo e que é um privilégio.” Lembra ainda algo pessoal: “O processo de envelhecer, para mim, é algo bonito. Acho que tendemos a ter medo, mas é um privilégio. Não vi a minha mãe envelhecer tanto quanto teria querido, e talvez me falte isso também. As rugas, as marcas no corpo são testemunhos da vida que tivemos o privilégio de viver. Queria celebrar a vida depois do envelhecer, celebrar a velhice, celebrar os corpos envelhecidos, dizer o quão belos eles são.

Calle Málaga está na competição internacional do Festival do Cairo, que decorre até 22 de novembro.

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