Lançado em 2018, já no rescaldo do caso Weinstein e dos movimentos #MeToo, #TimesUp e #BalanceTonPorc, o primeiro filme francês da Netflix, Je ne suis pas un homme facile (Eu Não Sou um Homem Fácil), destacava-se por uma abordagem mais arrojada, negra e menos formatada do que o padrão das comédias de body swap (das quais se aproximava). E, ainda que recorresse a certos clichés do cinema romântico, fazia-o sempre com ironia e sarcasmo, resultando num objeto curioso, pontuado por momentos eficazes de humor e uma reflexão discreta. 

Oito anos depois, a mesma Netflix decidiu regressar à fórmula, seguindo a lógica que o cinema popular se organiza num modelo de repetição com variação, reciclando-se as estruturas familiares, sob novas inflexões temáticas e tonais, mas mantendo o reconhecimento por parte do grande público

Em Primeiro as Senhoras (Ladies First) seguimos Damien (Sacha Baron Cohen), um homem misógeno bem-sucedido no mundo da publicidade que, depois de chocar contra um poste, desperta numa realidade paralela onde as mulheres dominam a sociedade. Confrontado com esse mundo invertido, Damien vai ser obrigado a experimentar na pele os mecanismos estabelecidos de desigualdade, o assédio e a subalternização, que antes estavam completamente normalizados na sua forma de ser.

Começa logo nos primeiros momentos o grande problema ideológico de Primeiro as Senhoras, pois o filme arranca com um narrador a dizer que Damien tem tudo, ou seja, sexo, dinheiro e poder. O filme enumera esses atributos como se fossem apenas marcas resultantes do sucesso individual, quando são, na verdade, sintomas de uma ordem ideológica, que nunca é verdadeiramente confrontada no filme de Thea Sharrock. 

Na sua lógica de entretenimento passageiro, pois aquilo que deveria ser interrogado acaba naturalizado, arranca aí a calamidade que vem de seguida, quando se começa a expor a troca de géneros e a mudança de quem tem o poder, numa inversão social que raramente ultrapassa a caricatura.

A cineasta, ao invés de desmontar criticamente os códigos associados aos géneros, limita-se a trocar os signos e a engrossar os estereótipos, fazendo com que o que era absurdo no filme original, mas que servia como ferramenta de revelação, torne-se agora um artifício de libertação de meras gags isoladas, com o elenco a nunca consegui soltar-se das amarras da rigidez da estrutura do jogo de espelhos a que estão confinados. 

Sacha Baron Cohen, habituado a papéis irreverentes e disruptivos, como se viu em Borat, Bruno ou O Ditador, vê a sua energia cómica ser reduzida ao banal, enquanto Rosamund Pike, que já revelou ser capaz de transitar da frieza calculada de Gone Girl à intensidade humana de A Private War, está igualmente entregue à acomodação. O mesmo se replica nos secundários, onde encontramos Richard E. Grant, Emily Mortimer e Fiona Shaw. Todos eles, em maior ou menor escala, servem apenas como elementos decorativos para dar prestígio à produção.

Sempre mais preocupada com a fluidez comercial do seu filme que com qualquer perturbação satírica, numa lógica de mise-en-scène sem arestas, Thea pega assim numa premissa, que no original ainda tinha alguma acidez, e domestica-a, transformando a violência conceptual da inversão de género numa comédia que procura consensos e risos fáceis, longínqua da verdadeira sátira com precisão e capacidade de reflexão.

Na verdade, dá a sensação que a Netflix pretendia efetivamente fazer uma variação de What Women Want (2000), uma comédia romântica que colocava Mel Gibson como um publicitário machista ao serviço de Helen Hunt, e não tanto uma visão anglo-saxónica do filme que Éléonore Pourriat concretizou em 2018. É que mesmo dentro das suas limitações, onde Pourriat procurava desconforto, Sharrock oferece digestão moral.

Contas feitas, o resultado final é apenas mais um filme feito na tal lógica da repetição com variação, onde se fala de desigualdade sem verdadeiramente a ferir. No fundo, Primeiro as Senhoras quer parecer progressista, mas pensa e age sempre como um produto comercial. O que era inversão tornou-se uma fórmula e o que era incómodo tornou-se numa embalagem tão pomposa como opaca.

A evitar.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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