Em Veneza, onde regressou sete anos depois de estrear Detroit (2017), a cineasta norte-americana Kathryn Bigelow explicou aos jornalistas que o seu novo projeto, A House of Dynamite (2025), encerra uma trilogia temática sobre a guerra, iniciada com The Hurt Locker (2008) e continuada com Zero Dark Thirty (2012).
Original da Netflix, A House of Dynamite não só é um dos filmes mais pobres da cineasta, como até parece um extenso episódio piloto de uma qualquer série televisiva que tenta explorar a partir de uma crise política/militar o impacto humano ao longo dos episódios que se seguem — mas não daquelas que deixaram efetivamente alguma marca na televisão, como Homeland, mas com interesse limitado como Jericho ou Designated Survivor.
Inspirado em testemunhos de pessoas que viveram de perto a realidade das decisões governamentais e centrado no “estado do arsenal nuclear e na competência de quem o controla” — palavras da própria Bigelow em Veneza —, A House of Dynamite desenrola-se nas salas de comando do governo norte-americano, acompanhando a Casa Branca perante a ameaça de um ataque nuclear lançado por uma entidade desconhecida. Humilhados por nem sequer conseguirem detetar a origem concreta no Pacífico — chega a ser levantada a hipótese de um ataque cibernético e coordenado que “cegou” os satélites —, os Estados Unidos têm pouco mais de dezoito minutos para conter o ataque com os seus sistemas de defesa e preparar uma reação.
Descobrir quem lançou a ogiva do Pacífico são “outros quinhentos”, dada a escassez de tempo, mas a especulação habitual sobre os potenciais culpados mantém-se previsível, com o tridente Coreia do Norte–Rússia–China a liderar as apostas. Assim, em cima da mesa, e sem se ter a certeza de quem lançou o míssil balístico intercontinental, surge a hipótese de atacar “um pouco por todo o lado”, para se defender, é claro.
O filme divide-se em três capítulos — “Inclination Is Flattening” (A Inclinação Está a Achatar-se), “Hitting a Bullet with a Bullet” (Acertar numa Bala com Outra Bala) e “A House Filled with Dynamite” (Uma Casa Cheia de Dinamite) — que revivem o mesmo ataque sob três perspetivas diferentes. Em cada um deles domina o olhar clínico sobre nomes, cargos, protocolos, siglas e conversas entre gabinetes, pontuado apenas por breves momentos de humanidade inserida à força da sentimentalidade: o Subconselheiro de Segurança Nacional fala da esposa grávida; a agente da NSA especializada na Coreia do Norte, Cathy Rogers, passeia com o filho em Gettysburg e lembra que tirou o dia de folga; o Secretário da Defesa telefona à filha, que está com o namorado e rejeita falar mais com ele. É assim que o filme tenta humanizar estas figuras políticas, de inteligência e militares presas a protocolos, metodologias de segurança e linhas de comando. Com exceção de uma chamada ao ministro da Defesa russo — que jura não ser responsável e desconfia que a China também não o fez —, o resto do mundo pura e simplesmente não existe, à exceção de breves menções a alertas em cidades como Telavive.

Essa é uma das razões pelas quais o filme acaba por soar como o episódio-piloto de uma série, pois introduz personagens que parecem centrais, mas carecem de um verdadeiro desenvolvimento ou arco; levanta dilemas éticos complexos, sem lhes dar resolução; e fragmenta o tempo ao repetir o mesmo evento sob diferentes perspetivas — o que permite compreender o funcionamento do sistema, mas impede o espectador de sentir qualquer conclusão dramática. “Fica tudo para a nossa sugestão”, defendem os entusiastas da realizadora; “fica para o segundo episódio”, respondem os detratores, que não se admirariam se o projeto tivesse continuação na plataforma de streaming, mesmo sem Bigelow na liderança.
No meio destes manequins, que tentam parecer homens e mulheres em situação de emergência, surgem rostos conhecidos: Idris Elba, como o presidente norte-americano, e Rebecca Ferguson, como a capitã Olivia Walker. Tal como o resto do elenco, ambos deslizam pelo guião rumo ao thriller de desastre convencional, de autenticidade melodramática e os chamados cheap thrills — mesmo que a fotografia de sensibilidade documental de Barry Ackroyd lute contra a maré. E até a vertente de thriller, de luta contra o relógio, sofre com a ginástica das diferentes perspetivas: quando o segundo capítulo repete o que já vimos no primeiro, o suspense dissipa-se e nada de verdadeiramente novo é acrescentado.
Por tudo isso, A House of Dynamite é um tiro completamente ao lado na filmografia de Kathryn Bigelow. Não satisfaz os dilemas que levanta, nem propõe uma verdadeira reflexão sobre o aumento — novamente — do arsenal nuclear após o seu retrocesso no pós-Guerra Fria. E se pegarmos em tudo isto para explorar o nome do filme — que evoca o facto de os Estados Unidos terem tanto armamento que vivem numa casa cheia de dinamite, prestes a explodir —, então bastava uma curta-metragem com Idris Elba a dizer essa frase, como o faz no último terço.




















