“Vivemos todos numa casa de dinamite”: Kathryn Bigelow regressa com “A House of Dynamite”

(Fotos: Divulgação)

Ausente do cinema desde Detroit (2017), onde retratava os motins de 1967, principalmente entre residentes negros e o Departamento de Polícia de Detroit, a norte-americana Kathryn Bigelow regressou ao Lido depois de aí ter estreado The Hurt Locker (Estado de Guerra, 2008), que viria a ganhar o Óscar de Melhor Filme e a torná-la na primeira mulher a vencer o prémio de Melhor Realização.

Projeto como selo Original da Netflix, A House of Dynamite desenrola-se nas salas de comando do governo norte-americano, onde os responsáveis da Casa Branca enfrentam a ameaça de um ataque nuclear iminente. Idris Elba, Rebecca Ferguson, Gabriel Basso, Jared Harris, Tracy Letts, Anthony Ramos, Moses Ingram, Jonah Hauer-King e Greta Lee, Jason Clarke fazem parte do elenco do filme que compete ao Leão de Ouro.

Kathryn Bigelow (Credits Jacopo Salvi La Biennale di Venezia – Foto ASAC)

Esta história pareceu-me urgente de contar. É uma conversa que precisamos de ter. Estamos a falar de armas nucleares — um problema global. E, claro, há sempre a esperança de que um dia se reduza o arsenal nuclear. Mas, entretanto, vivemos todos numa ‘casa de dinamite’”, afirmou Bigelow em Veneza, explicando igualmente porque esteve sete anos sem lançar nenhum projeto: “Preciso de estar apaixonada por um tema. Não sei se sou realmente uma ‘realizadora’, mas sei que, quando acredito numa história, sinto que consigo fazer tudo”.

Quando questionada sobre a forma isolacionista como retrata os EUA — que fazem muitas chamadas aos inimigos, mas nenhuma aos aliados —, a cineasta afirmou que o que vemos no filme é um espelho das conversas que ouviu de quem já esteve nessas salas. “Se há uma tendência isolacionista, é importante que seja notada e discutida”, disse, acrescentando que talvez com este filme encerre a sua trilogia sobre a guerra, que inclui The Hurt Locker e Zero Dark Thirty. “Interessa-me a autenticidade e a construção de uma espécie de ‘rascunho de história’. Em Zero Dark Thirty, revelei os anos obscuros até à captura de Bin Laden. Em The Hurt Locker, a insurgência no Iraque. Aqui, quis perceber o estado do arsenal nuclear e a competência de quem lida com ele”.

O argumento de A House of Dynamite foi sempre acompanhado de perto pela cineasta, como confirmou o argumentista Noah Oppenheim, sublinhando a obsessão de Bigelow com a autenticidade: “A partir daí decidimos mostrar como estas decisões seriam realmente tomadas dentro das salas de comando. (…) Começámos o trabalho há cerca de dois anos. Mas desde o início da era nuclear, a realidade é a mesma: existem arsenais suficientes para destruir a civilização várias vezes. O filme não reflete um momento político específico, mas sim o perigo constante do sistema nuclear”.

Idris Elba e Rebecca Ferguson (Credits Jacopo Salvi La Biennale di Venezia – Foto ASAC)

Já a fotografia está entregue a Barry Ackroyd, que Bigelow descreveu como “talvez o melhor diretor de fotografia do mundo”. Oriundo do documentário, “tem o dom de tornar tudo real“. “Sem ele, provavelmente não teria feito o filme”, confessou a realizadora.

O filme foi rodado quase por ordem narrativa, o que intensificou a experiência”, acrescentou o ator Idris Elba, que interpreta o Presidente dos EUA. Rebecca Ferguson, que também participa na obra, define a sua personagem como alguém que segue protocolos e não tem espaço para opinião. Mas, pessoalmente, admite: “O filme despertou-me interesse, gerou conversas na minha família e mostrou-me a fragilidade em que vivemos. Mesmo em tempos de paz, estamos sempre sentados sobre dinamite”.

O Festival de Veneza termina a 6 de setembro.

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