«Zero Dark Thirty» (00:30 Hora Negra) por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

Se é como diz o ditado — onde há fumo, há fogo —, então o que se encontra por trás do incenso dos críticos norte-americanos que empurram este filme para os Óscares equivale à chama de um isqueiro. O que não invalida reconhecer que se trata de um esforço sério de Kathryn Bigelow (The Hurt Locker) em recriar, “a partir de um relato feito em primeira pessoa”, como avisa no início, o processo de captura e execução de Osama Bin Laden.

Quem anda à caça dele é uma equipa que, a partir de certo ponto, passa a ser liderada por uma agente da CIA (Jessica Chastain) que não foge à recorrente fantasia do cinema americano: a do agente assexuado e sem laços afetivos que coloca o dever acima de qualquer coisa que se pareça com vida. Esta máquina (feminina, como convém a Bigelow) move-se primeiro pelo senso de dever, depois por um estranho e deslocado sentimento de vingança — uma espécie de guerra santa ao contrário.

Com a confiança da sua personagem, a realizadora conta uma versão inequívoca dos factos, sem margem para dúvidas e muito menos para questionamentos políticos (estes, então, nem vê-los). É sobre o mito da objetividade pura que se constrói este retrato — uma crença tão profícua quanto o delírio da democracia universal. Apesar de Ben Affleck ter atirado a toalha a meio do seu Argo, o seu filme permanece como a mais interessante abordagem do ano aos bastidores sombrios da política externa norte-americana, já que não se coibiu de pôr os dedos nas feridas (nem que fosse para retirá-los logo depois).

O que fica disto tudo é a abordagem de misantropos engrandecidos por um sentido de missão — uma temática que Bigelow trabalhou de forma muito mais concisa e intensa no verdadeiramente poderoso The Hurt Locker. Se ela não negligencia essa dimensão (embora não a explore com a mesma força), são necessárias quase três horas para que isso finalmente se torne claro.

É na execução que Zero Dark Thirty revela os seus atrativos, conseguindo narrar com envolvência uma história tão labiríntica quanto as ruas das cidades islâmicas por onde passa. Por outro lado, a partir do último terço torna-se notória a dificuldade da cineasta em lidar com o final já conhecido desta história, concluindo o filme com uma anti-climática e prolongada brincadeira de esconde-esconde. É um mau filme? Não, de todo — mas também não é para tanto.

 
 
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