Há pelo menos quinze anos, desde a consagração mundial de HaHaHa com o Prix Un Certain Regard de Cannes, não há Festival do Rio sem Hong Sangsoo — pelo menos um. Entusiasta de filmes centrados na palavra, onde a dramaturgia nasce do diálogo e da observação, herdeiro da literatura e do teatro, o realizador sul-coreano tornou-se presença cativa na maratona carioca, que admira a estética da palavra esculpida a baixo orçamento (e com profundo existencialismo). Na sua 27.ª edição, iniciada a 2 de outubro, o evento exibirá a longa-metragem mais recente desta máquina de filmar: What Does That Nature Say to You, neste domingo, às 16h30, no Cinesystem Belas Artes. A produção disputou o Urso de Ouro, em fevereiro.
Foi uma surpresa o júri presidido pelo cineasta americano Todd Haynes não ter atribuído à fita qualquer prémio, pois, sempre que concorre em Berlim, Sangsoo costuma sair laureado. Em 2024, ao receber o Grande Prémio do Júri por A Traveler’s Needs, com Isabelle Huppert (a sua parceira recorrente), o realizador de 64 anos virou-se para a plateia e perguntou: “O que viram no meu filme?”. Seis meses depois dessa vitória alemã, apresentou-se no Festival de Locarno, na Suíça, competindo ao Leopardo de Ouro com outra longa, By the Stream. Saiu de lá com outro mimo: a sua companheira, a atriz e produtora Kim Min-hee, foi distinguida pela sua atuação. Juntos, criam num verdadeiro esquema de guerrilha.
“Não faço contas acerca de cálculos orçamentais, pois cuido de muitos aspetos dos meus filmes”, disse Sangsoo ao C7nema, na Berlinale, deixando claro que ele próprio escreve, fotografa e monta os seus filmes, além de compor as bandas sonoras que os sustentam. “Um dia, numa entrevista, disse que filmo por cerca de 100 mil dólares. Tenho mantido essa cifra. Trabalho de modo compacto. Conto apenas com uma parceira de produção (Kim Min-hee), um assistente e um operador de som. É uma equipa de quatro pessoas. Cada projeto leva cerca de três semanas, sendo que a rodagem em si me consome sete ou oito dias.”

O público do Festival do Rio 2025 conhecerá amanhã Donghwa, um poeta de trinta e poucos anos, protagonista de What Does That Nature Say to You. Ele leva a namorada, Junhee, numa viagem de carro de Seul até à casa dos pais dela, nos arredores de Icheon. Surpreendido com o tamanho da casa e dos jardins montanhosos, Donghwa aceita o convite do pai de Junhee para passar o dia com a família. O encontro transforma-se numa ciranda de conversas entre o patriarca, a esposa — também poeta — e as duas filhas adultas, uma delas em crise depressiva. À medida que o álcool corre, Donghwa embriaga-se e deixa cair a máscara de polidez, revelando um lado desconfortável e vulnerável.
“O cinema esforça-se por embelezar o óbvio, apostando na elasticidade dos símbolos que cada imagem carrega. Eu não acredito em símbolos, acredito no que há de concreto nas relações”, afirmou Sangsoo, cuja carreira começou em 1996 com O Dia em que o Porco Caiu no Poço. “Parto de arquétipos e mostro, pouco a pouco, que eles não significam nada.”
Elevado a um estatuto de popstar autoral em 2010, Sangsoo — nome que por vezes surge grafado como Sang-soo ou Sang-Soo — mantém-se uma figura central do cinema contemporâneo. A forma mais comum, Sangsoo, é a usada no recém-lançado Dictionnaire du Ciné, que o consagra como um dos realizadores mais coerentes e obstinadamente pessoais do nosso tempo.

