Retratando como os sons da vida quotidiana em Gaza, Palestina, foram drasticamente alterados após o 7 de outubro de 2023, quando um ataque do Hamas em Israel originou uma resposta israelita absolutamente cega e desproporcional, “Gaza Sound Man” utiliza o som como ferramental para transmitir o impacto emocional e físico de conflito que isolou ainda mais um território palestino que Israel está histericamente desejoso de invadir, ocupar e transformar (com a ajuda de Trump) numa nova Riviera.
Assinado pelo engenheiro de som Mohamed Yaghi, o filme, como produção da AlJazeera, não se inibe de fazer uma espécie de mini-bio do nosso “anfitrião”, um homem que nos garante que o primeiro som que gravou foi o mais belo que reflete uma nova vida, ou seja, de um parto. Porém, tudo o que vemos aqui, porque a imagem, mesmo num documentário onde o som é o foco, vale mais que mil palavras, é a destruição que Israel impôs a Gaza e a um povo que, de forma resiliente, recusa morrer. E essas histórias de resiliência são acompanhadas por reflexões do próprio Yaghi, que adicionando camadas de intimidade com a sua história pessoal, mostram o espírito persistente do povo de Gaza com particular enfoque na alteração da paisagem sonora após o 7 de outubro.
Compreendamos que, tal como “Once Upon a Time in Gaza” mostrou este ano, Gaza é, presentemente, uma enorme prisão em que os carcereiros atacam como querem e não deixam ninguém se movimentar, com termos como “genocídio” e “apartheid” a serem gritados um pouco por todo o lado, ao que Israel responde com palavras como “antissemitismo” e que o seu combate é contra o terrorismo.
O resultado é a criação de um território com dinâmicas de encarceramento, facilitando o surgimento de uma facção dominante (Hamas) que, depois de “limparem” do espaço prisional o outro movimento que tinha força, a Fatah, tornaram-se os senhores da “prisão”, sequestrando o poder de uma população que já estava de si sequestrada – e desprovida de identidade – e à mercê de outros sequestradores: Israel.
Nesse sentido, o documentário de Mohamed Yaghi, que se inibe de didatismos e parte do principio que todos nós sabemos a história do conflito israelo-arabe e do sequestro de Gaza, surge perante nós mais como um pequeno gesto jornalístico de ver um conflito e um genocídio, contribuindo também para o debate sobre um crime humanitário e político que um estado, supostamente democrático, está a perpetrar.



















