Com a clara noção que Gaza, território palestino, é presentemente uma enorme prisão, a dupla de cineastas Arab e Tarzan Nasser pede emprestada os códigos dos westerns e dos filmes de penitenciárias para nos mostrar uma história de pequenos criminosos atropelados num pequeno espaço por um sistema interno (palestino) que cria a sua própria lei, encerrado noutro sistema (israelita) que aplica o mais violento apartheid e o controla.
“Era uma vez em Gaza” é um avanço considerável (formalmente e esteticamente) e consistente da dupla de irmãos radicada em França, isto depois de terem assinado em 2020 “Gaza Mon Amour”, filme onde também atacavam a situação da Palestina perante Israel, mas também olhavam para dentro com sentido crítico ao narrar a história de um pescador idoso solteiro que apanha nas suas redes uma estátua grega que lhe vai trazer problemas com as autoridades palestinas (Hamas).
Desta vez, tal como em “Eagles of the Republic“, de Tarik Saleh, “Era uma vez em Gaza” segue à rodagem de um filme de propaganda, o “primeiro filme de ação produzido na Faixa de Gaza“, financiado pelo Ministério da Cultura para a glória da resistência contra o inimigo sionista. As filmagens deste filme vão-se revelar uma armadilha para o protagonista, foi escolhido por acaso num café, que vai ter de confrontar no set de filmagens o polícia moralmente corrupto que assassinou um colega de pequenos crimes e tráfico.
Com domínio da câmara e suaves inflexões de género que se acondicionam no guião convenientemente, o filme vai do suspense ao drama, passando pela comédia, o filme de vingança e de ação, sempre com a articulação de uma montagem eficaz e ao serviço de um guião experiente em lidar com simbolismos. E embora a influência, logo pelo nome do filme, da dupla de cineastas seja Sergio Leone, Arab e Tarzan nunca se perdem numa homenagem vazia ou de excessos fetichistas de demonstração da sua cinefilia. Prefere-se antes uma simplicidade movida pela vingança, centrando mais a atenção nos pequenos focos de poder (e luta) dentro de espaços encerrados, do que na profundidade de uma história pessoal. E no tal jogo do filme dentro do filme, o real e a ficção misturam-se e confundem-se, com o resultado de cada um dos indivíduos a tender para um destino invariável de desgraça, mesmo que se lute ou não se lute diretamente contra isso. Numa guerra como a que Israel impõe a Gaza, qualquer ricochete de projétil, ou forma de “danos colaterais”, mostra que quem lá vive está permanentemente numa roleta russa da vida.
Um intenso regresso de uma dupla que saiu premiada da Un Certain Regard com o prémio de melhor realização.



















