Woody Harrelson ganhou os holofotes da cultura pop ainda na década de 1980, através da televisão, na série Cheers (1982), e, assim que passou ao cinema, soube conciliar as exigências de Hollywood com uma presença contínua na ala indie do cinema norte-americano. Aí, somou três nomeações aos Óscares, a começar por The People vs. Larry Flynt (1996), vencedor do Urso de Ouro em 1997. As propostas do cinema independente dos Estados Unidos nunca abrandaram na trajetória do ator, com o acréscimo de séries mais radicais, como True Detective (2014). Os convites da Europa mantiveram-se constantes, a julgar pela parceria com Ruben Östlund, iniciada em Triangle of Sadness (2022), Palma de Ouro desse ano, e agora com o francês Quentin Dupieux. Este satirista, que mantém viva a linhagem de Voltaire — só que no cinema — já trabalhou com nomes famosos no passado, como Vincent Lindon e Louis Garrel. A entrada luminosa de Harrelson e Kristen Stewart em Full Phil leva o realizador a outro extremo na sua procura por reconhecimento.
Desde Rubber (2010), lançado em Portugal como Rubber – Pneu, Dupieux consolidou uma das filmografias mais singulares do cinema europeu contemporâneo, transformando o absurdo numa linguagem autoral tão rigorosa quanto delirante. Veio da música e afirmou-se, na imagem, através do seu prolífico investimento em narrativas de curta duração, nas quais o ritmo da dita normalidade embate constantemente no insólito.
Herdeiro tanto do humor deadpan surrealista como de uma pulsão anárquica próxima das bandas desenhadas dos anos 1970, à moda de Métal Hurlant, o realizador francês esculpe, filme após filme, uma mecânica narrativa onde o nonsense nunca existe apenas como provocação gratuita, mas antes como ferramenta para desmontar convenções. Falha muitas vezes — veja-se Wrong (2012) e Réalité (2014) —, mas tem também vários acertos, como Au Poste ! (2018), lançado em Portugal como Na Esquadra, o brilhante Le Daim (2019), ou O Casaco de Camurça, Yannick (2023) e agora Full Phil. O seu motor é uma estética do desconforto, interessada na fragilidade alheia. Avança pouco nesse debate. Avança pouco também na capacidade de provocar verdadeiro riso. Melhora sobretudo na forma como lida com atores difíceis de domar.
Em certa medida, Full Phil é apenas “mais um” Dupieux, ou seja, não é mais do que uma nova dose da sátira que o músico e cineasta utiliza para destroçar o jogo de aparências das relações sociais. O que traz maior frescura a esta mistura de body horror com comédia — raramente muito divertida — é a entrega fluida dos protagonistas: Kristen Stewart, um colossal Woody Harrelson e Charlotte Le Bon.
Existe uma narrativa paralela a preto e branco, uma espécie de versão B de O Monstro da Lagoa Negra (1954). É o filme que a turista norte-americana Madeleine, interpretada por Kristen Stewart, vê em DVD enquanto tenta estabelecer um diálogo com o pai, o tal Phil do título, vivido por um luminoso Harrelson. Charlotte Le Bon interpreta a empregada de um hotel de luxo que se instala no meio destes dois, observando a falta de temperança de Phil, que faz dele uma figura impossível de controlar. A direção artística que envolve este delírio segue uma linha cartunesca e dionisíaca, mais inspirada do que a média habitual de Dupieux.

















