Neste ano em que o clã dos Wayans procurou revitalizar o humor, ainda que na base da grosseria sem limites, com o êxito de Scary Movie: What’s Up?, de modo a desafiar as patrulhas castradoras da comédia, o riso encontra um reforço extra, pelas vias da animação infantojuvenil, com Minions & Monsters, Mínimos & Monstros, uma aventura desenhada como se fosse uma carta de amor ao cinema. Uma carta amorosa, mas hilariante. Não por acaso, foi a atração de abertura do Festival de Annecy, em 2026, pelo seu simbolismo como uma revisão crítica dos feitos que pavimentaram a cinefilia enquanto cultura. Pierre Coffin, seu realizador, num trabalho em dupla com Patrick Delage, teve a sobriedade de mesclar o pop que fala com as gerações de hoje, na participação marota de George Lucas, em versão animada, com referências de enorme popularidade do passado, como The Great Train Robbery (1903) e Steamboat Bill, Jr. (1928). Coffin evoca ainda, explicitamente, longas que são eternas, como Citizen Kane (1941), de Orson Welles. O resultado é um microcurso de História do Cinema para miúdos e graúdos que, nas suas recriações, reforça o prestígio da Illumination não apenas como uma máquina de fabricar êxitos de bilheteira, mas como uma verdadeira fábrica de dramaturgias cinematográficas. Ao contrário da Pixar, que parece cada vez mais apostada em converter as suas narrativas em sessões de psicanálise coletiva, impondo o divã freudiano ao público, a companhia responsável por Super Mario Galaxy prefere confiar na inteligência do espectador e fazer do humor o seu principal motor. E há ainda uma virtude adicional: dificilmente existe hoje outro grande estúdio de animação ocidental que invista tanto na construção de paisagens sonoras inventivas e tão pouco dependentes das fórmulas técnicas convencionais.

Há quem veja na escolha de Minions & Monsters para abrir Annecy uma capitulação do mais prestigiado festival mundial de animação perante a lógica dos blockbusters. Trata-se, porém, de uma leitura redutora. O gesto representou sobretudo o reconhecimento de uma marca criativa cuja influência comercial e cultural é hoje impossível de ignorar. O universo iniciado com a delícia Despicable Me (2010), Gru, o Maldisposto em Portugal, Meu Malvado Favorito no Brasil, já ultrapassou os 5,6 mil milhões de dólares em receitas mundiais antes mesmo da estreia desta nova aventura, sem contar o gigantesco mercado de brinquedos, vestuário, material escolar, videojogos e licenciamento. Poucas propriedades intelectuais surgidas no século XXI conseguiram uma expansão semelhante.

A própria Illumination nasceu de uma ideia simples, mas revolucionária. Em 2007, Chris Meledandri abandonou a Fox para fundar um estúdio capaz de produzir animações significativamente mais baratas do que as da Disney e da Pixar, mas igualmente aptas para dialogar com públicos de todas as idades e de qualquer continente. A aposta revelou-se certeira logo à primeira tentativa. Despicable Me arrecadou mais de 540 milhões de dólares, transformando Gru e os seus ajudantes amarelos num fenómeno planetário. Vieram depois mais três episódios de Gru e duas longas só com os Minions, todos a oscilar entre os 900 milhões e os mil milhões de dólares de receita, quase sempre produzidos com orçamentos muito inferiores aos dos concorrentes diretos. Em Hollywood, esta relação entre investimento e retorno aproxima-se da descoberta de uma mina de ouro.

Grande parte dessa identidade criativa deve-se precisamente a Pierre Coffin. Nascido em França, formou-se na escola Gobelins, uma das mais respeitadas instituições de animação do mundo, antes de trabalhar em publicidade e em séries televisivas. A consagração chegou quando assumiu a realização de Despicable Me, ao lado de Chris Renaud, em 2010. Foi igualmente Coffin quem concebeu a personalidade dos Minions, Mínimos, e lhes emprestou a voz, inventando uma língua absurda composta por palavras oriundas de vários idiomas, transformada desde então numa das assinaturas mais reconhecíveis do cinema de animação contemporâneo. Entre a realização, a criação visual e a interpretação vocal, tornou-se uma das figuras centrais da identidade artística da Illumination.

Essa personalidade revela-se novamente em Minions & Monsters, talvez o projeto mais cinéfilo alguma vez produzido pelo estúdio. É um verdadeiro presente para quem ama cinema. Resta saber se os miúdos apreciarão todas as referências tanto quanto os adultos, mas o desfile de homenagens é irresistível. Passam pelo ecrã ecos de Modern Times (1936), The Great Dictator (1940), City Lights (1931), Singin’ in the Rain (1952), King Kong (1933), The Day the Earth Stood Still (1951), Ghostbusters (1984) e o recente Babylon (2022), de Damien Chazelle, além do universo de Charles Chaplin, Buster Keaton e Harold Lloyd. Nem os célebres Keystone Cops escapam à brincadeira, enquanto os produtores gémeos Frank e Elwood recuperam deliberadamente a fisionomia de Oliver Hardy, metade da dupla Laurel & Hardy.

O enredo acompanha os Minions ao longo de diferentes épocas históricas, sempre à procura de um novo vilão digno da sua devoção. Quando chegam à Hollywood dos anos 20, acabam envolvidos nos bastidores da nascente indústria cinematográfica. Harry, James e Ed afastam-se do restante grupo e libertam monstros clássicos para permitir que Henry concretize o sonho de realizar um filme de terror, enquanto os restantes Minions cruzam o caminho de Dort, um robô extraterrestre que acaba inesperadamente apaixonado por uma humana. Como seria de esperar, as confusões sucedem-se em ritmo acelerado, explorando com enorme inteligência tanto a iconografia do horror clássico como a própria história da linguagem cinematográfica.

Também o elenco vocal demonstra a ambição da produção. Christopher Waltz, Jesse Eisenberg, Allison Janney, Jeff Bridges e Zoey Deutch participam na trupe de vozes e cada um, à sua maneira, solidifica a força das personagens. Pierre Coffin regressa igualmente ao microfone para dar voz aos seus inseparáveis Minions, cuja musicalidade continua tão incompreensível quanto universal.

Mais do que um simples capítulo adicional de uma franquia bilionária, Minions & Monsters confirma que a Illumination continua a compreender como poucos o equilíbrio entre espetáculo popular, memória cinematográfica e inteligência narrativa. Numa época em que tantas superproduções vivem obcecadas com universos partilhados e efeitos digitais, Coffin oferece uma celebração apaixonada da própria arte de filmar, recordando que o cinema continua a ser uma fábrica de sonhos, gargalhadas e imaginação. É precisamente essa combinação de irreverência, cultura cinéfila e diversão genuína que faz desta aventura uma das animações mais inspiradas e generosas do ano.

Há, contudo, um preço a pagar por tamanha devoção cinéfila. Em vários momentos, Minions & Monsters parece mais empenhado em celebrar a memória da Sétima Arte do que em construir uma progressão dramática verdadeiramente consistente. A sucessão de referências torna-se, ocasionalmente, um catálogo de citações que dilui o envolvimento emocional da narrativa. Não chega, porém, para comprometer o encanto da experiência. Pelo contrário: confirma Pierre Coffin como um dos poucos autores do grande cinema de animação industrial capazes de recordar que o entretenimento popular também pode ser um espaço de preservação da memória cultural. No fundo, aquilo que Annecy distinguiu ao escolher esta produção para abrir a sua edição de 2026 não foi apenas um blockbuster. Foi um filme que passa pela arqueologia e a transcende, mostrando que o passado do cinema, à força do movimento, consegue sempre tornar-se presente.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
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