Com várias curtas-metragens na bagagem e uma longa estreada na secção Encounters da Berlinale em 2022, “Sone”, Kurdwin Ayub, uma cineasta curda nascida no Iraque, mas radicada na Áustria, tem no seu DNA cinematográfico o mesmo trabalho em prol do incómodo e desconforto do espectador que categorizam as produções da casa Ulrich Seidl, na qual também habitam, além do próprio realizador da trilogia Paradise, a dupla Veronika Franz & Severin Fiala.

Na verdade, esta dupla já este ano nos “incomodou” (e de que maneira) com o seu espesso “The Devil’s Bath” (Des Teufels Bad), um filme de mulheres encurraladas por uma sociedade que as vê como objetos a moldar em função dos homens. Mas se o filme da dupla, que nos trouxe há uns anos “Goodnight Mommy”, nos data no século XVIII, o de Kurdwin Ayub desenrola-se na atualidade, na Jordânia, onde Sarah, Sarah, uma antiga lutadora MMA, se dirige para um trabalho que lhe parecia simples: ensinar a três jovens artes marciais. Porém, a família rica que a contratou tem uma relação tóxica com as raparigas, as quais, entregues à sua condição de mulheres, pouco ou nada podem fazer no seu dia a dia sem que exista intromissão e espionagem familiar. 

Semelhantes no tópico, diferentes nos caminhos narrativos e desenvoltura estética e formal, afinal o filme de Veronika Franz & Severin Fiala passa-se no interior da Áustria e conta com um grande leque de cenas ao ar livre ao longo de várias estações diferenciadas, e o de Kurdwin encerra-se em espaços fechados em que perdemos noção temporal (seja a casa onde as jovens habitam, o centro comercial que visitam sobre o olhar atento de guarda-costas, ou o bar que tantas vezes a protagonista visita), ambos os filmes aliam à sensação de enclausuramento uma solidão claustrofóbica e esmagadora, os quais frequentemente levam a atos irracionais de violência.

Pontilhando o seu filme com elementos de género, onde os códigos dos thrillers e até cinema de horror nos deixam frequentemente com o coração a palpitar, Kurdwin, tal como os seus “padrinhos” de produção, quebra, cena a cena, as expetativas do espectador, que perante a sua enorme incapacidade de mudar o que quer que seja que vê no ecrã, sente um desconforto nauseante de injustiça latente. E esse sentimento também nos leva a outro austríaco, Haneke, que tanta irritação nos provocou no seu famoso “Funny Games”, podendo assim se falar numa visão austríaca contemporânea muito negra (a que podemos juntar Jessica Hausner e Michael Glawogger), de profunda vontade de provocar desassossego no espectador.

Mas deixando referências de lado, até porque Kurdwin Ayub começa a dar sinais de “autor” ao colocar este seu novo filme em diálogo com o anterior, começando assim a criar um conjunto de “obra”, “Mond” tem na dinâmica e carisma do seu elenco uma das suas maiores forças. Um quinteto de atrizes (uma delas só aparece mais tarde) consegue agir como um bloco entregue à frustração, enquanto no campo masculino, escapa-se à generalização, especialmente através da personagem do irmão das raparigas, que mostra empatia onde todos os outros sentem apenas o dever de obediência de quem lhes dá ordens e paga.

E no final das contas, essa obediência a uma entidade invisível, mas castradora, a que chamamos patriarcado, continua a esmagar a liberdade das mulheres, seja na Jordânia, numa mansão rica, seja numa cave austríaca, à la Josef Fritz, seja em Portugal, onde desde o início do ano, 25 mulheres já foram vítimas do que se chama feminicídio.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
mond-encurraladasDeixando referências de lado, até porque Kurdwin Ayub começa a dar sinais de “autor” ao colocar este seu novo filme em diálogo com o anterior, começando assim a criar um conjunto de “obra”, “Mond” tem na dinâmica e carisma do seu elenco uma das suas maiores forças