Lançado na edição n° 15 da revista “The Amazing Spider-Man”, em 1964, Kraven é um fruto do czarismo, o sistema monárquico e autocrático da sua Rússia natal na qual o líder político é uma divindade e a aristocracia dele derivada é senhorial, intocável. Em tempos da Guerra Fria, quando a cultura eslava (assumida como comunista) era alvo de patrulhas, qualquer milionário omnipotente vindo daquelas terras, mesmo criado nas brasas de um projeto político imperial já derrubado, funcionaria como vilão perfeito para a cultura pop, sobretudo por não ser movido a vetores da cobiça financeira. Os criminosos da Marvel daqueles tempos ou eram ladrões à cata de enriquecimento ilícito (como o Abutre ou Electro) ou ditadores de apetite voraz pelo controle do planeta (caso do Dr. Destino). Sergei Nikolaevich Kravinoff não se enquadra em nenhum dos casos, pois o seu motor é a vaidade e a sua meta é capturar o Homem-Aranha, para pendurar a sua cabeça mascarada numa parede de troféus. Essa sanha vaidosa foi capturada com acuidade na transposição do bandido russo às telas e traduzida, à perfeição, na fala de um de seus satélites, o seu pai mafioso, Nikolai, interpretado nas raias da ironia por Russell Crowe: “Homens que matam lendas tornam-se lendas”.

O gangster refere-se a um leão feroz, mas o aforismo caberia duplamente à personagem composta com visceralidade pelo inglês Aaron Taylor-Johnson. Ao longo de 2h07 de adrenalina aos litros, ele executa atos que o tornam lendário e, ao mesmo tempo, procura extinguir células corruptas legendárias, sobretudo aquelas que acossam animais. Nessas duas vias, Aaron (em estado de graça) transforma Kraven numa figura complexa, entre o altruísmo e o egocentrismo, que faz jus ao seu perfil nos comics.

Para quem é marvete (termo usado para descrever as/os leitoras/es da editora americana), Kraven The Hunter é um deleite pela precisão com que os argumentistas Richard Wenk, Art Marcum e Matt Holloway dialogam com o património dramatúrgico das bandas desenhadas do Homem Aranha, com um aproveitamento criativo de marginais como Rino. A mais importante saga da personagem interpretada agora por Aaron, Kraven’s Last Hunt (lançada em 1987 por J. M. DeMatteis, Mike Zeck e Bob McLeod, inspirada por Dostoiévski), é citada com inteligência na aventura audiovisual filmada por J.C. Chandor com maestria plena nas sequências de ação. É nesse aspeto que a longa-metragem melhor pode arrebatar quem não liga nenhuma a graphic novels e histórias ilustradas.


Diante da reinvenção cinemática das formas de se filmar violência imposta por realizadores que foram duplos, como Chad Stahelski e David Leitch, sobretudo na franquia John Wick(2014-2023), Chandor consegue surpreender pelo dinamismo das batalhas (realçado na montagem taquicárdica de Chris Lebenzon e Craig Wood), avessas a pruídos moralistas. Há sangue a espirrar sem pudor, o que soa ousado para o padrão Marvel e para o timbre habitual de um cineasta conhecido pela subtileza, como se viu em A Most Violent Year(2014) e no ótimo All Is Lost (2013), com Robert Redford a correr perigo no mar.

Foi pelas vias do thriller político, no esquecido Margin Call (2011), que Chandor despontou como promessa, embora não tenha emplacado (até hoje) um êxito estético à altura da sua potência. Apesar disso,na sua incursão ao pretérito imperfeito de Kraven, ele desfila espectros autorais ao problematizar o tumor social da máfia russa na Europa, ampliando uma paranoia que Hollywood explora desde Red Heat (1998), de Walter Hill. Consegue levar ainda ao centro da sua nova empreitada as inquietações ecológicas que alimentaram a sua parceria com Redford, há onze anos, numa mistura equilibrada com os códigos nerds dos filmes de super-heróis… ou, no caso, de super-vilões.

Cheio de carisma, Aaron humaniza Kravinoff sem travar as suas virtudes. Uma poção dada a ele quando adolescente, em África, ampliou a sua força, a sua agilidade e os seus sentidos, de modo a torná-lo uma máquina de matar com instinto similar ao do felino que o seu papai caçou quando ele era pequeno. A morte da mãe é um peso para ele e para o irmão, Dimitri (Fred Hechinger), que virá a ser o alter ego do Camaleão. O rapaz é sequestrado pelo maior rival de Nikolai (Crowe), o ladrão e assassino Aleksei (um inspirado Alessandro Nivola, ator que vive uma fase de apogeu, vide The Room Next Door), o já citado Rino. O objetivo é expor e deter Kraven. Este tem travado uma caçada a meliantes em todo o planeta, o que irrita o submundo. Um paranormal vivido por Christopher Abbott, em insosso desempenho, vai atrapalhar a vida de Kravinoff, que conta com o auxílio da advogada Calypso (Ariana DeBose) para o combate ao Mal. Um combate que, como tudo nessa saborosa investigação sobre a prepotência, vai entrar numa bifurcação e assumir um caráter ambivalente. É a marca autoral de Chandor: todos os seus protagonistas, assim como os secundários, vacilam nas convicções morais.

Orçado em cerca de 130 milhões de dólares, Kraven The Hunterfoi desvalorizado como produto no rol de estreias da temporada de Fim de Ano de 2024, mas carrega mais eficácia do que muitos outros engenhos mercadológicos fabricados para fazer fortunas neste segundo semestre. É capaz de honrar a sua matriz pop (os comic books) e de espatifar arquétipos de anti-heróis e da vilania. Quem tiver dúvidas de que Aaron pode ser um bom James Bond, uma vez que fala-se dele para ser o novo 007, pode ficar sossegado: o Agente Secreto de Sua Majestade pode vir a encontrar nele um bom substituto para Daniel Craig.

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Rodrigo Fonesa
Jorge Pereira
kraven-the-hunter-marvel-em-natureza-selvagem“Kraven The Hunter” foi desvalorizado como produto no rol de estreias da temporada de Fim de Ano de 2024, mas carrega mais eficácia do que muitos outros engenhos mercadológicos fabricados para fazer fortunas neste segundo semestre