Em dois momentos de crucial relevância dramática — e poética —, a canção dos Stones “She’s a Rainbow”, na voz de Mick Jagger, inunda Succederà Questa Notte como se fosse um grito da vida, a cantar que certas coisas não se controlam. Amar (de verdade) é um verbo incontrolável. O Tempo, um danado, é também um ente sem freio, só que substantivo. Ele torna-se concreto na forma como Nanni Moretti o administra, naquele que pode ser o seu trabalho mais lírico — e, ao mesmo tempo, o mais arriscado. Para um animal político que se define “parcial”, à luz de velhas ideologias humanistas, deixa a ironia seminal do seu cinema num segundo plano a fim de fazer um painel personalista de um casal. Pode dizer-se que fez o seu Brief Encounter. Como no de David Lean, o seu tem senões morais e travas de responsabilidade. E mais do que isso… tal como a magistral love story do artesão inglês, o Brief Encounter de Nanni Moretti atropela-nos e desossa-nos a alma.

Vencedor da Palma de Ouro de 2001 por O Quarto do Filho, esse mestre das comédias críticas — e também do melodrama — regressou este ano à competição de Veneza 45 anos depois de ter sido laureado com o Prémio Especial do Júri por Sogni d’Oro, em 1981, ex aequo com Eles Não Usam Black-Tie, do carioca Leon Hirszman. Pelo meio houve o célebre caso de Palombella Rossa (1989), recusado pela seleção oficial e acolhido pela Semana da Crítica, episódio que alimentou durante anos a ideia de uma relação difícil entre Moretti e o festival. Cannes tornou-se, entretanto, a casa festivaleira mais regular do seu cinema, ainda que, nos últimos anos, tenha parado de dar bola — e estatuetas — ao seu cinema corrosivo, mas popular.

Succederà Questa Notte, com Louis Garrel e Jasmine Trinca, passou pelo Lido há cerca de duas semanas, marcando o regresso de Moretti à competição veneziana e comprovando que a velha centelha autoral da sua pátria, maior rival de Hollywood na História, ainda provoca incêndios. A sua volta deu-se através de um recorte tão desvairado (e doce) do querer que o júri de Maggie Gyllenhaal parece ter-se engasgado com o seu mel, deixando-o sair sem um troféu à altura da sua excelência. Que San Sebastián, por onde agora passa, possa ser-lhe mais generoso.

Nesse novo trabalho de Moretti, com as suas habituais tintas agridoces, pinta-se o idílio de uma atriz que largou o ofício (Jasmine Trinca) para focar o seu sonar afetivo na filha mais velha e de um livreiro de coração quente. Esse é o papel de Louis Garrel, que faz jus aos grandes enamorados do cinema. É Jean-Pierre Léaud, é Tom Hanks, é Richard Gere, é o Trevor Howard de Brief Encounter. É todos eles na sua maneira otimista de lidar com as perdas e as escolhas.

Cada um se depara com problemas pessoais e vagas emocionais. As suas vidas estão interligadas enquanto procuram alguma realização. Ela sofre com um casamento cansado pelas exigências familiares e pelas renúncias, sobretudo por exigências que já não precisavam de existir. Ele foi deixado pela mulher com um filho bebé nos braços e tem de domar um pai boa gente, mas armado em garotão, vivido por um irresistível Hippolyte Girardot. Apesar das cicatrizes, ele é leve. Torna-a leve. Os dois flanam e inundam o cinema ao som de Jagger numa sequência de verter lágrimas e roubar esgares.

Para falar destes dois, que parecem adolescentes quando se amam e se embolam no desejo, Moretti arma uma arquitetura dramatúrgica que avança no tempo ao longo de 17 anos, saltando sete anos, depois outros sete e, finalmente, mais três. Amadurece um mar de coisas nesse oceano de Cronos, em especial o tesão dos seus protagonistas.

Assente na prosa de Eshkol Nevo, Succederà Questa Notte simboliza aquilo a que compatriotas de Moretti chamam Nuovo Risorgimento, um renascimento de veias estéticas. Um ressurgimento com uma força semelhante à que se viu há 18 anos, quando Gomorra, de Matteo Garrone, e Il Divo, de Paolo Sorrentino, ajudaram a retirar a indústria cinematográfica italiana dos aparelhos de respiração que a mantiveram, a duras penas, durante décadas. Em tempos de derrocada daquele povo nos ecrãs, a ironia nannimorettiana de O Crocodilo (2006), Aprile (1998) e Caro Diário (1993) manteve a dignidade daquele audiovisual em alta.

Com 50 anos de longas-metragens na carreira, a começar por Eu Sou Autossuficiente (1976), Moretti foi a clareira que, pelas vias da ironia e da sátira política, manteve a grandeza do cinema italiano viva e festejada na década de 1980. Começou ali uma espécie de Idade Média mediática em que a crise das salas coincidiu com a ascensão da televisão comercial e, mais tarde, com o crescimento do império audiovisual de Silvio Berlusconi (1936-2023). Uma terra de gigantes — Rossellini, De Sica, Fellini, Visconti, Antonioni, Pietro Germi, Pier Paolo Pasolini, Elio Petri, Lina Wertmüller, Valerio Zurlini —, próspera na seara dos filmes de género, seja no terror com o giallo de Dario Argento ou no faroeste com as macarronadas de Sergio Leone, Tonino Valerii e Sergio Corbucci, minguou durante os anos 1980, vendo enfraquecer parte da estrutura industrial que alimentara essa abundância.

Até campeões de bilheteira como Bud Spencer e Terence Hill atravessaram essa transformação do mercado, embora tenham continuado a trabalhar juntos regularmente até meados dos anos 1980. A expansão da televisão comercial foi um dos fatores de uma mudança muito mais ampla nos hábitos do público e na economia do audiovisual italiano. Giuseppe Tornatore, com Cinema Paradiso, e Roberto Benigni, com A Vida É Bela, souberam depois flertar com as receitas da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

Resistentes do movimento moderno também se mantiveram firmes, como o falecido Bernardo Bertolucci (1941-2018) — que fez incursões pelo Oriente e filmou noutras línguas — e o até hoje imparável Marco Bellocchio, que filmou O Traidor (2019) no Rio e está agora ligado a Falcon, com Pierfrancesco Favino no papel do empresário Sergio Marchionne, da Fiat. Mas esses dois são crias dos anos 1960.

Moretti, um velho bruxo, não. É, portanto, cria de outra Itália, desmobilizada da tradição e mesmo da revolução dos modernos do nuovo cinema de vanguarda. Nem por isso deixou de procurar revoluções, filme a filme. O ponto mais rebelde do seu regresso ao circuito festivaleiro está na hipótese de que o amor, como a esperança, é um vício que cura. Amparado por um Garrel em estado de graça e pela fotografia indómita de Francesco Di Giacomo, deu a Donostia (e ao mundo) um filme mágico — do tipo que já quase não se faz.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
succedera-questa-notte-nanni-moretti-lanca-um-feitico-sobre-o-amorAssente na prosa de Eshkol Nevo, Succederà Questa Notte simboliza aquilo a que alguns têm chamado um Nuovo Risorgimento, um renascimento de veias estéticas.