A França tem amor pelos seus livros. Aprendeu com Victor Hugo (1802-1885) que «a palavra é, sobretudo, um ser vivo». Essa vividez leva, de tempos a tempos, a novas adaptações de clássicos, embora estas, formalmente, por vezes cheirem demasiado a naftalina. É o risco que Les Misérables, de Fred Cavayé, aceita correr durante quase três horas, numa transposição luxuosa, eficaz e tão reverente ao monumento literário de 1862 que não se atreve a transgredir uma vírgula da tradição criada pelas muitas versões anteriores.

Há no projeto uma indisfarçável tentativa de prolongar o fenómeno de Le Comte de Monte-Cristo (2024), superprodução de Alexandre de La Patellière e Matthieu Delaporte que levou mais de nove milhões de espectadores às salas francesas e transformou o património literário nacional em espetáculo popular de primeira grandeza. Les Misérables procura a mesma alquimia: dinheiro no ecrã, estrelas em abundância, reconstituição histórica opulenta e a certeza de que Victor Hugo ainda funciona como uma poderosa propriedade intelectual francesa.

Cavayé conhece os mecanismos do thriller e aplica-os com perícia ao percurso de Jean Valjean (Vincent Lindon), condenado a 19 anos de prisão pelo roubo de um pão e perseguido, após reconstruir a vida sob outra identidade, pelo inspetor Javert. Fantine, Cosette, Marius e os Thénardier regressam obedientemente aos seus lugares na engrenagem de Hugo, agora envoltos por uma produção de escala monumental. Há músculo e emoção, mas pouca vontade de profanar o altar: a eficácia raramente se converte em descoberta.

É Tahar Rahim quem sopra ar novo sobre essa arquitetura conhecida. O seu Javert não se resume ao polícia de convicções graníticas que persegue Valjean: Rahim transforma a rigidez numa doença da alma. Um olhar, uma pausa ou a tensão quase impercetível do rosto deixam entrever as fissuras de um homem que precisa da lei para manter o mundo — e a si próprio — em ordem. Frente à solidez de Lindon, trabalha por corrosão, fazendo do antagonista uma presença simultaneamente ameaçadora e trágica.

Les Misérables esbanja eficácia e confirma a capacidade francesa de converter a sua biblioteca numa fábrica de grandes imagens. Falta-lhe justamente aquilo que Hugo reconhecia na palavra: vida suficiente para romper a moldura. Mas, sempre que Rahim entra em cena, a poeira da tradição levanta-se por instantes.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
les-miserables-um-odio-que-virou-epico-sem-renovacaoLes Misérables esbanja eficácia e confirma a capacidade francesa de converter a sua biblioteca numa fábrica de grandes imagens. Falta-lhe justamente aquilo que Hugo reconhecia na palavra: vida suficiente para romper a moldura.