Mahamat-Saleh Haroun, realizador chadiano que considera sempre redutor usar-se o termo de cineasta africano para se referir a si, tem construído uma filmografia centrada em personagens fragilizadas pelo peso de uma história brutal no seu país.
Dos filhos chocados com o abandono do pai em Abouna (2002), ao homem que procura vingança após uma guerra em Daratt (2006), chegando a A Screaming Man (2010), o autor tem explorado sobretudo a fragilidade masculina em contextos de instabilidade social e política, a que acresce o peso do passado. Nos últimos anos, porém, o seu foco deslocou-se com força para o universo feminino, como se viu em Lingui (2021), onde colocava uma mãe e uma filha no centro da resistência contra estruturas opressivas, e Soumsoum, the Night of the Stars (Soumsoum, la nuit des astres), estreado na Berlinale na corrida ao Urso de Ouro, onde aprofundou e deu uma nova dimensão à travessia de duas mulheres que se cruzam num choque de culturas, expondo mais uma vez o patriarcado e como este esmaga aqueles e aquelas que saem da norma sob o peso da lei moral e da tradição.
Aqui seguimos Kellou, interpretada por Maïmouna Miawama, uma jovem de 17 anos vista pela aldeia e pelo pai como amaldiçoada desde o nascimento, já que a sua mãe não resistiu ao parto. As visões que tem atualmente do passado e do futuro reforçam esse estatuto de estranheza e a sua ligação com Aya (Achouackh Abakar Souleymane), uma mulher mais velha também marginalizada e culpabilizada pelos infortúnios da comunidade, como as cheias e a morte de bebés, torna-se o núcleo central do filme, pois entre as duas estabelece-se um vínculo de reconhecimento mútuo como figuras excluídas quando Kellou é atacada por um grupo de aldeões.
Tal como em obras anteriores de Haroun, a comunidade funciona simultaneamente como abrigo e mecanismo de exclusão. O pai de Kellou, Garba (Ériq Ebouaney), migrante nunca plenamente aceite pelos aldeões como um dos seus, reforça a ideia de que o estatuto de outsider herda-se e transmite-se. A liberdade individual e o reconhecimento como membro do grupo surgem sempre em confronto direto com uma ordem coletiva feita de regras, tradições e superstições que definem quem pertence e quem deve ser afastado.
Após um início em que o elemento sobrenatural das visões da jovem se impõe, o filme segue as rotas do realismo, ganhando uma tonalidade mágica no último terço, quando Kellou inicia uma viagem física e espiritual pelo deserto de Ennedi. É nesse momento que entra em cena o termo “Soumsoum” do título, que designa um ritual metafísico de reconciliação entre vivos e mortos.
Escapando ao olhar exótico, sob a direção de fotografia de Mathieu Giombini, filmado com atenção à luz e ao silêncio, Soumsoum, the Night of the Stars atinge uma forte dimensão sensorial, nunca perdendo a sua força real. É aqui que política, intimidade e poesia fluem sob um olhar profundamente humano, numa mensagem clara do cineasta de fazer justiça à memória de mulheres acusadas de bruxaria.
Nesse percurso, os pequenos gestos de solidariedade e de sororidade que assistimos permitem resistir aos estigmas e revelam uma magnitude que ultrapassa largamente o espaço local onde a ação se desenrola, tornando-a universal. Ao seu jeito, Soumsoum traça também rotas de exclusão como Salvation, de Emin Alper, e usa o místico e espiritual para traçar um caminho de imposição e agressão a quem não encaixa no modelo de vida definido.



















