Crimes impossíveis, como o famoso “quarto fechado” e as suas variações, atraem escritores desde que Edgar Allan Poe abriu o jogo, ao estruturar o crime como um problema lógico que tem de ser resolvido através de uma análise racional explícita.
Não é por acaso que Os Crimes da Rua Morgue surgem mencionados numa lista de leituras sobre crimes impossíveis em Wake Up Dead Man: A Knives Out Mystery, o terceiro filme da saga de Rian Johnson, que volta a colocar o “Poirot sulista” norte-americano, Benoit Blanc (Daniel Craig), a tentar resolver um crime — desta vez sem famílias milionárias ou elites tecnológicas, mas numa pequena comunidade onde um líder religioso é assassinado de forma aparentemente “impossível”.
Não só Poe é invocado, como também Dorothy L. Sayers (Whose Body?), John Dickson Carr (Hollow Man) e a inevitável Agatha Christie (O Assassinato de Roger Ackroyd; O Assassinato na Casa do Pastor), que tem servido de guia espiritual para toda a saga Knives Out. Poder-se-iam ainda mencionar Gaston Leroux (O Mistério do Quarto Amarelo) ou Ellery Queen (O Mistério do Chapéu Romano), numa lista praticamente infindável de puzzles narrativos, primeiro literários e depois cinematográficos, que ajudam a explicar a criação da personagem de Benoit Blanc por Johnson: um detetive ortodoxo, cheio de maneirismos, que se recusa sistematicamente a aceitar qualquer crime como irresolúvel.
Outro dos elementos essenciais desta franquia, que tem feito as delícias da Netflix desde 2019, são os elencos estelares que orbitam um Daniel Craig permanente, sempre como eixo em torno do qual se escavam os mistérios. À semelhança dos grandes detetives clássicos, Benoit Blanc fica, tudo o resto muda.
Em Knives Out, Johnson reuniu nomes como Chris Evans, Ana de Armas, Jamie Lee Curtis, Michael Shannon, Don Johnson e Christopher Plummer, compondo uma família onde cada rosto parecia esconder uma motivação plausível para o crime. Glass Onion: A Knives Out Mystery trocou a herança e o legado pelo ego contemporâneo. Nele, Edward Norton encarna o bilionário visionário em modo paródia, enquanto Janelle Monáe, Kate Hudson, Dave Bautista e Leslie Odom Jr. surgem como caricaturas reconhecíveis de um ecossistema mediático contemporâneo, usados como peças dentro de um palco fechado.
Já em Wake Up Dead Man: A Knives Out Mystery, o tom escurece e são Josh O’Connor e Josh Brolin que funcionam como centro dramático, em torno do qual gravitam Glenn Close, Andrew Scott, Kerry Washington, Cailee Spaeny, Daryl McCormack, Jeremy Renner, Thomas Haden Church e até Mila Kunis.
Após uma agressão, o padre Jud (Josh O’Connor) é enviado para uma terriola para assistir o monsenhor Jefferson Wicks (Josh Brolin), que há muito parece ter perdido a capacidade de servir Deus e a comunidade local, transformando as missas em momentos de humilhação pública para qualquer novo fiel que nelas participe. Jud — um antigo pugilista que encontrou Deus depois de matar um homem no ringue — vê nesta missão a derradeira oportunidade de endireitar a sua vida. O monsenhor que encontra pela frente, porém, tem uma agenda bem definida, o que dificulta em muito qualquer tentativa de redenção.
Quando, durante uma missa, o monsenhor é encontrado morto dentro de uma cabine, Jud torna-se o principal suspeito, ainda que a própria forma como o crime ocorreu aponte para um mistério aparentemente irresolúvel. É então que Benoit Blanc entra em cena, convocado por Jud, enquanto Johnson mobiliza todo o seu arsenal narrativo para construir uma resolução improvável para um crime igualmente impossível.

O resto — e tendo já definido o alcance da palavra rocambolesco — o espectador pode adivinhar. Há voltas e reviravoltas, segredos revelados imediatamente substituídos por outros, numa narrativa que nunca se limita ao simples quebra-cabeças e que, nas entrelinhas, comenta sempre o tempo em que surge. No primeiro filme, surgem ecos claros das tensões em torno da imigração e da ideia de pertença; no segundo, são os novos bilionários estratosféricos, excêntricos e autocentrados o alvo de uma sátira que parece um encontro improvável entre o cinema de Ruben Östlund e a literatura de Agatha Christie. Já neste terceiro capítulo, o foco desloca-se para o poder das redes sociais e para a massificação de discursos que alimentam cultos de personalidade muito afastados das ideias cristãs que afirmam defender.
São temas que dialogam diretamente com o presente: o trumpismo enquanto fenómeno cultural, os Elon Musk e Jeff Bezos desta vida, ou figuras de influência ideológica rápida e descartável à la Charlie Kirk. Todos atravessam a saga como fantasmas contemporâneos, nunca nomeados, mas facilmente reconhecíveis.
Wake Up Dead Man: A Knives Out Mystery não é, de todo, o melhor filme que poderia ser, embora os atores brilhem nele. O regresso ao crime impossível serve de pretexto para algo mais simples e mais incómodo: mostrar que, por trás de cada enigma aparentemente insolúvel, existe um retrato bastante legível do mundo que o produziu, e do caminho algo bizarro por onde caminhamos. Essa ambição temática, contudo, não chega para compensar o fracasso estrutural do filme.
Como exercício de dedução, o filme tanto se aproxima como se afasta de uma tendência muito típica da literatura e do cinema contemporâneos: oferecer ao espectador a falsa sensação de esperteza por “desvendar” o mistério antes do fim. Aproxima-se porque distribui pistas de forma ostensiva; afasta-se porque torna praticamente impossível acertar em tudo de forma honesta. Johnson complica deliberadamente o processo, de forma mirabolante e estapafúrdia, transformando a lógica num jogo de improbabilidades encadeadas, em que cada dedução correta depende de uma anterior que o espectador dificilmente teria razões para aceitar.
O resultado não é uma lógica quebrada, mas uma lógica elástica, mais interessada em surpreender a qualquer custo do que em ser um verdadeiro desafio intelectual. É precisamente aí que o filme falha: ao trocar o prazer da dedução pelo cansaço da arbitrariedade que insiste em apresentar como lógica. Para uma parte significativa do público, como eu, isso revela-se não apenas insuficiente, mas, a partir de determinado momento, extremamente aborrecido e um exercício de ego — de puro pretensiosismo — travestido de estilo.




















