Depois de dois anos de absoluto penar com a erosão do seu outrora massivo contingente de espectadores, decorrente da pandemia, o cinema francês vive um ano de bonança, com sucessos atrás de sucessos, de caça-níqueis como Astérix a narrativas de perplexidade, como “Tirailleurs”, filme de guerra com Omar Sy. Nesse contexto, os cineastas autorais também fizeram as pazes com as plateias agigantadas da terra de Truffaut, como é o caso de François Ozon. Ele arrastou mais de um milhão de espectadores às salas exibidoras de Paris, Marselha, Nice, Toulouse e arredores, entre março e abril, com o seu divertidíssimo “O Crime É Meu” (“Mon Crime”).
Mistura agridoce de humor e thriller, num formato de vaudeville, esta agil longa-metragem ocupa espaço na gaveta das experiências solares de Ozon. A sua obra foi coroada com o Grande Prémio do Júri da Berlinale, em 2019, por “Grâce à Dieu”, um comentário de tom político sobre situações reais do Presente. Mas, no geral, ou segue uma linha pautada por investigações convulsivas sobre a paixão (como “Jeune et Jolie”, “Peter von Kant” e “Dans la Maison”, que lhe valeu a Concha de Ouro de San Sebastián, em 2012) ou caminha (elegante) por comédias agudas sobre desencaixes comportamentais (como “Potiche” ou “8 Femmes”). A produção que lhe devolveu o prestígio de ser um bom vendedor de bilhetes de cinema segue por essa linha mais leve, mas fá-lo reiterando a sua identidade de autor, esgueirando-se numa mirada criativa pessoal sobre um texto teatral homónimo de 1934, assinado por Louis Verneuil e Georges Berr.
A partir da sua estreia em dose dupla, em 1988, com “Photo de Familie” e “Le Doigts Dans Le Vetre”, Ozon realizou 16 curtas e uma média-metragem de 52 minutos (“Regarde La Mer”), antes de lançar a sua primeira longa: “Sitcom” (1998). É a essa época que ele se remonta em “Remastered & Uncut”, filme recente em que passa a sua carreira a limpo. Foi nesse percurso de narrativas em pílulas que ele criou o seu estilo sensual, maioritariamente queer, com que viria a atrair atrizes estrelas como Isabelle Huppert, que participa com destaque em “Mon Crime”, que traz o comediante Dany Boon como um dos seus muitos chamarizes. Também realizador, Boon estrelou e realizou o fenómeno “Bienvenue Chez Les Ch’Tis” (“Bem-Vindos ao Norte“, em Portugal; “A Riviera Não É Aqui” no Brasil), visto por mais de 20 milhões de espectadores em 2008.
Envelopado numa direção de arte requintada, assinada por Stephanie Laurent Delarue e por Philippe Cord’homme, “Mon Crime” transporta a plateia até à Paris de 1930, onde Madeleine Verdier (Nadia Tereszkiewicz), uma atriz jovem, pobre e sem talento, mas cheia de força, é acusada de assassinar um famoso produtor. A sua melhor amiga, Pauline (Rebecca Marder), uma advogada desempregada, consegue defender Madeleine com afinco e ela acaba absolvida por legítima defesa. Uma nova vida de fama e sucesso começa a partir daí. Mas essa bonança só vai durar até à verdade por trás do crime ser finalmente revelada. Essa revelação mobiliza uma estrela decadente, Odette Chaumette (Isabelle, brilhante a cada plano), que clama para si a autoria do assassinato. Envolvem-se ainda no caso, o dono de uma fábrica de pneus (André Dussollier), um inspetor de polícia (Fabrice Luchini, magnífico em cena) e um arquiteto com ar de dandi (papel de Boon, longe dos arquétipos caricatos nos quais costuma apostar).
Ozon cria um tabuleiro de xadrez hilariante com essas figuras excêntricas, em movimentos deflagrados pelo desejo de roubar o nosso riso e de nos provocar uma reflexão sobre a gradual erosão de uma Paris que deixou de ser uma festa ao avançar pela década de 1930. Gera, com isso, um painel de época que conversa com o Jean Renoir de “La Vie Est à Nous” (1936), mas repleto dos códigos de ironia que dão identidade à sua filmografia.




















