“As Lágrimas Amargas de Petra von Kant” é um dos mais poderosos tratados sobre o desejo na sua vertente melodramática. A sua essência é o excesso: na dor e no prazer, no gozo e na cova. Era assim já na sua génese, quando foi escrito por Rainer Werner Fassbinder (1945-1982). Foi o que se fez dele quando o próprio diretor e dramaturgo resolveu filmá-lo, há 50 anos. E é assim na revisão – de género e de ofício, de protagonista e de parte da trama – feita por François Ozon e trazida por ele para a abertura da 72ª edição da Berlinale.
É um filme excessivo, como os seus antepassados requerem, apoiado num ator inspirado e num realizador apaixonado pelo seu objeto (de um lado o desejo, esse objeto pontiagudo; do outro o próprio Fassbinder, um dos ídolos de Ozon), mas, ainda assim, bastante protocolar na forma, sem qualquer transcendência no plano formal, a não ser algum esmero na direção de arte. É um trabalho maduro de um cineasta que tem uma assinatura de autor (sempre ligada ao desejo), mas que raras vezes se destaca por algum requinte plástico na sua realização.
Na longa-metragem original, exibida há exatamente 50 anos na disputa pelo Urso de Ouro, Margit Carstensen era Petra, uma estilista de renome. No auge da fama, ela apaixonava-se por Karin, interpretada por Hanna Schygulla (a diva de Rainer Werner), e era consolada pela sua secretária, Marlene (Irm Hermann). Agora, na versão de Ozon, Kant é um realizador vivido por Denis Ménochet, que tem uma quase-aliada na cantora e atriz Sidonie (encarnada por Isabelle Adjani como uma figura traiçoeira), a quem deve gratidão pelo passado. Mas a chegada de um rapaz sedutor trazido por ela vai mexer com os brios de Kant e desafiar a sua razão.
Ao longo de 90 folhetinescos minutos, Ozon afoga-nos na cova, acompanhando o naufrágio de um coração no oceano do desamor. É uma proposta melodramática explícita. E, como já havia demonstrado em filmes como “O Tempo Que Resta” (2005), Ozon domina essa cartilha. Só não sabe – nem parece querer – renová-la. O que não é mau, mas não é brilhante.




















