
Tanto de excêntrico quanto de irregular, François Ozon desta vez acertou em cheio e cometeu um dos mais belos e inteligentes filmes de época recente. Dentro de Casa é um poético e intrincado labirinto metalinguístico para onde é arrastado sem se dar conta o professor de literatura Germain (Fabrice Luchini) e o próprio espectador.
A iniciar mais um ano de trabalho no liceu Gustave Flaubert, marcado invariavelmente pela ignorância selvática dos alunos e acrescida da tentativa institucional de uniformizar ainda mais o rebanho, parece haver pouco que o salve de mais um ano nas trevas. Mas, no meio do maralhal, um OVNI: uma redação de um jovem aluno, Claude Garcia (Ernst Umhauer), que exibe tanto de perspicácia estilística quanto de acutilância de observação – neste caso a um material bastante mundano. Trata-se da casa de “classe média” do seu amigo Rapha Artole (Bastien Ughetto), onde “entra” como convidado e, a engenhar cada vez mais artimanhas para tal, se tornará um hóspede frequente.
“Dentro de Casa” é essencialmente sobre arte, ficção e histórias. Uma vez dentro da casa do amigo que, assim como a família dele, se transformarão em personagens, Claude cria um segundo enredo que virão a ser descritos em textos escritos ao professor sob os mais variados pretextos e que vão adquirir para ele um caráter completamente viciante.
Engenho igualmente bem arquitetado por Ozon, que consegue dialogar com os ensinamentos sobre escrita narrativa que o professor vai ministrando ao seu aluno ao mesmo tempo que cria um filme tão delicioso de se seguir quanto os cada vez mais rebuscados relatos que Claude faz da família de Rafael. No sexto texto, por exemplo, num momento de paroxismo magistral, ainda não satisfeito em já ter atirado o espetador para dentro da (s) história (s), Claude/Ozon dão-se ao luxo de registar a vida dos Artoles ao minuto!
As ferramentas são mínimas: a construção visual do filme, por exemplo, resume-se a cinco cenários. A ação é repetidamente inserida pela voz em off de Umhauer nas leituras dos seus textos (serão 20 ao longo do filme!) e, em termos de ação dramática, nada parece estar a acontecer de relevante.
E é disto que reclama o mestre: depois da sexta redação, diz ele a Claude que falta conflito à sua história e dá-lhe a lição suprema da arte narrativa: um personagem deseja alguma coisa, mas encontra obstáculos no caminho, ou conflito interior, e ele tem de decidir o que fazer para solucionar o problema. “Precisamos de alguém contando histórias. Uma vida sem histórias de nada vale“. Mas esse discurso é desconstruído pelo próprio filme: mesmo sem um conflito aparente nas muito realistas descrições do seu pupilo, Germain não consegue largar a história de Claude.
Num filme em que arte é o assunto principal, o realizador/argumentista usa ainda da galeria à beira da falência da esposa de Germain, Jeanne (Kristin Scott Thomas), para abordar um nível mais extremo em que a própria existência da arte enquanto tal é posta em causa. Num momento, por exemplo, serão expostos uns auscultadores onde o visitante ouve uma descrição do quadro que deveria estar ali pendurado mas cujo autor destruí-o depois de pintar!

A literatura em si já ocupou lugar central em outros trabalhos de Ozon. Em Angel, de 2007, dava-se a lógica inversa deste Dentro de Casa, onde uma jovem escritora era bem-sucedida e construía “no mundo real” aquilo que desejava – que era ser escritora. Em Swimming Pool (2003), por sua vez, a relação era mais complexa, mas a escritora vivida por Charlotte Rampling conseguia, de certa forma, agir dentro da sua própria história.
Os rumos aqui são outros, particularmente quando entra em cena um terceiro subplot – quando o engenho narrativo de Claude começar a virar as suas armas para o seu próprio mestre. Gradualmente caberá a ele a terrível descoberta de um processo de desmaterialização da sua própria vida em função do simulacro.
No mais, Germain tem razão: os selvagens já invadiram o Ocidente, mas não só entre os jovens “incapazes de escrever duas frases articuladas“, mas numa Europa dominada por uma orientação política de pragmatismo e destruição cultural. Para tudo isso, não há solução e a expressão artística tampouco seria uma delas, como bem diz o professor: “A arte não ensina nada, apenas mostra a beleza“. Esta, uma qualidade rara no cinema-pipoca feito para sentidos cada vez mais brutalizados, não falta numa obra onde tudo funciona: argumento, direção, elenco e a música fabulosa de Philippe Rombi.

Roni Nunes

