Habituados a documentar a realidade dos bairros madrilenos há largos anos (na sessão no Doclisboa, o grupo falou em 7 anos), o coletivo EspírituEscalera trouxe ao Doclisboa, depois de passagens pelo Documenta Madrid e Fid Marseille, a docuficção Mitologia de Barrio, onde um sonho premonitório de um homem, o Sr. Tang, que adormece numa tarde de verão na sua mercearia, acaba por reflectir um sonho (ou pesadelo) prestes a acabar com a cidade como a conhecemos.
Depois uma introdução onde somos – através de um vídeo com uma voz a espalhar a voz do poder e do suposto estatuto visionário – levados ao crescimento de Madrid para uma nova era a partir de 1910, através de uma série de edificado construídos para preencher uma avenida central do crescimento urbano, somos imediatamente levados para os subúrbios em molde dormitório, os arrabaldes como Frederico Serpa se referiu recentemente nas salas de cinema, ainda que com escassos resultados, onde a massa popular e trabalhadora se acumula entre gavetas edificadas em quarteirões repetitivos, com maior ou menor dimensão, sempre desprovidas daquilo que os políticos na última década têm vendido: a das cidades para as pessoas.
Mais críptico do que adepto de ligações e exposições diretas sobre uma questão complexa e multidisciplinar, afinal estão imbuídas nesta temática elementos urbanos, demográficos, sociais (de luta de classes que se sente em cada construção habitada ou não) e políticos (de decisões quotidianas de quem manda e planeia), “Mitologia de barrio” tem a mesma alma de “Morte de uma cidade” de João Rosas, mas com uma preocupação estética muito mais apurada dentro do seu olhar arquitetónico, do que da reflexão humana e individual sugerida por ele, servindo certamente de base para um debate também ele multidisciplinar sobre o futuro das urbes e de quem vive nelas, do seu papel como personagem principal na vida das pessoas, e não pano de fundo para que as formou e deu vida. Esta é uma nova cidade entregue à gentrificação e ao deslocamento dos trabalhadores para os seus satélites, cada vez mais longínquos.
Uma cidade que esmaga (ou come) os seus habitantes, como os autores falaram durante a sessão de abertura da secção Verdes Anos do Doclisboa 24. É que nisto, as cidades, nas suas fronteiras rígidas, tornam-se cada vez mais não lugares, mas pedaços de um museu para o turismo aglutinar, ou locais de passagem e estadia curta, não para viver (a não ser para as elites), mas para trabalhar e apenas visitar. Uma massa trabalhadora que, longe delas, permanece invisível e, também eles, engavetados por esses arrabaldes fora, mas que Antonio Llamas, Jorge Rojas Alejandro Pérez Castellanos saúdam entre pequenos gestos por ruínas criteriosamente tratadas como um objeto sci-fi.




















