Em 2006, Ben Rivers filmou “This is My Land”, uma curta-metragem que nos apresentava Jake Williams, um solitário homem que vivia num habitat invulgar. Anos depois, e sentindo que ainda não tinha encerrado aquela personagem de quem entretanto se tornara amiga, Rivers regressou ao local e decidiu – agora numa longa-metragem, a sua primeira – reconstituir com Williams situações reais da sua vida, impulsionando o tom “lonely” da personagem. Nascia “Two Years at Sea”, uma obra que apresenta como assinatura pessoal do artista, um preto e branco prateado e granulado filmado a 16mm definitivamente hipnótico que por vezes nos dá uma sensação de mobilidade onde não existe e que da forma observacional e contemplativa partia para a construção de uma figura que viria, em 2024, a ser novamente revisitada em “Bogancloch”, numa referência à região da Escócia onde este homem – já com mais capacidades sociais -resiste.
É desse ato de observação para o início de uma construção que, partindo do documentário, Rivers caminha para a ficção, não fazendo um retrato verdadeiro de Jake, mas mostrando uma visão particular do seu mundo, que de certa maneira evoca a utopia muito querida ao cineasta (exposta em curtas como “A Spell To Ward Off The Darkness”) e o conflito permanente entre o mundo contemporâneo e formas de vivência de pessoas que se separaram da sociedade dominante (também visto em “Krabi, 2562”).
“Bogancloch”, que na verdade começou há duas décadas quando o cineasta apenas procurava alguém numa cabana num bosque, especialmente porque na época estava a ler “Pan”, de Knut Hamsun, que segue um homem que vive numa cabana com o seu cão Aesop, é um trabalho sobre suma vida – de Jake Williams – em aparente imobilidade na sua autossuficiência na floresta em Aberdeenshire, em conexão com a natureza, num mundo em transformação e onde os silêncios revelam ruídos ensurdecedores.
Mantendo autoralmente o seu estilo visual e sonoro, que ganha particular relevo aqui (o cineasta traz a voz de Jake e outras pessoas para cena), Rivers mantém uma distância perante um Jake que se encaixa (e se perde) naturalmente na paisagem (natural e artificial) e que percebemos, tal como em “Two Years at Sea” – através de imagens coloridas de locais exóticos – ,que há muitos anos teve uma vida diferente (Jake é um ex-marinheiro). Porém, a forma enigmática como pensa e age continuam a revelar-se um mistério que permite a Rivers nos permitir absorver este mundo como novo. Se assim o entender e a natureza deixar, o cineasta poderá revisitar novamente esta personagem que continua a aparecer perante nós de forma tão críptica como fascinante.
Não se pense, porém, que “Bogancloch” é apenas uma mera continuação de “Two Years at Sea”, na sua forma de olhar para Jake num processo de observação do envelhecimento e da sua vida. Se existe algo que percebemos é que esta figura vive sozinha, mas não é um eremita, e que a sua forma de se integrar no mundo em mudança leva, também em si, a mudança do mundo consigo.



















