Conhecido diretor de fotografia espanhol, Ion de Sosa — que já trabalhou nessa função com Lois Patiño em Ariel (filmado nos Açores) e com Chema García Ibarra num dos filmes que mais marcou a edição de 2021 do Festival de Locarno, Espírito Sagrado —, realizou também obras como Mamántula (2023). Este ano, levou até à Suíça, à secção Cineastas do Presente, Balearic, uma alegoria opaca ao mundo em que vivemos e para onde caminhamos. Segregação de classes, privilégio e indiferença flutuam, juntamente com uma juventude a quem é entregue um planeta em cacos e um sociedade cheia de hierarquias pré-estabelecidas, por duas histórias separadas que se conectam nas entrelinhas (e de porta escancarada no fim).
No primeiro momento, numa ilha nunca nomeada, onde nunca vemos o mar, vemos um grupo de jovens a invadir uma mansão. Enquanto duas das raparigas do grupo espreitam o que há no interior da casa completamente vazia, outros dois, um casal, ficam cá fora a discutir a sua relação. A certo momento, os quatro reencontram-se cá fora e, no meio do isolamento e sem vivalma à vista, decidem experimentar a piscina. É nesse instante que um trio de cães violentos os ataca, ferindo seriamente uma das raparigas, sendo a imagem cortada pelo cineasta e pelo montador para a segunda história dentro do filme.
A poucos quilómetros de distância, um grupo de elites abastadas celebra a véspera de São João numa luxuosa villa. Prepara-se paella, bebem cocktails, conversam sobre banalidades, mostrando um cariz tradicional e conservador, e evitam entrar na própria piscina, dominados por uma inquietação ritual. Eles ignoram tudo, como pessoas que, na sua torre de marfim, estão convencidas de que conquistaram tudo, e que por isso se eximem de responsabilidades além do próprio umbigo. Um fogo florestal ameaça ao longe, mas eles deixam isso para segundo plano e convivem como se de nada se tratasse, como se eles fossem imunes ao mal do mundo.
No espírito de El Ángel Exterminador (O Anjo Exterminador, 1962), de Luis Buñuel, Mamá cumple cien años (A Mamã Faz 100 Anos, 1979), de Bigas Luna, e Triangle of Sadness (Triângulo da Tristeza, 2022), de Ruben Östlund, mas numa estética de terror elevado e intelectualizado de crítica social a partir da fotografia granulada e solarenga em 16 mm por Cris Neira — em Cinemascope, com influências de Sergio Leone — que emula algum cinema da década de 1970, o filme facilmente cairia “no saco” da Shudder caso fosse norte-americano.
A banda sonora techno pulsante de Xenia, associada a momentos gore (ataque dos cães) e outros de indisfarçável incómodo — a dança perante o fogo, a cena de um helicóptero a abastecer-se na piscina dos ricos para combater as chamas —, faz com que Balearic seja todo ele simbólico, seja através de uma elite enclausurada, refugiada na comodidade, enquanto o mundo arde lá fora, seja através de um grupo de jovens que procura o relaxe em terrenos de privilégio e é atacado pelos desafios da modernidade, entregues aos restos que as gerações anteriores lhes deixaram.
O resultado é uma inquietante captação de tensões num paraíso ensolarado, que — como Davi Pretto definiu no seu Futuro Futuro — evoca sempre com um mal inominável presente na atmosfera, mas se sente permanentemente.




















