Não existem grandes dúvidas que no campeonato da estranheza e dos risos envergonhados entre a escuridão do drama e as luzes da comédia, o filme espanhol “Espiritu Sagrado” é praticamente imbatível nesta edição 2021 do Festival de Locarno.
Conhecido por “Uranes”, “In the Same Garden” e “Mistério” [presente no Curtas Vila do Conde], Chema Garcia Ibarra levou até ao certame suíço a história de um pequeno município, Elche, na província de Alicante, comunidade autónoma da Comunidade Valenciana, onde o desaparecimento de uma menina é encarado como consequência das mais variadas teorias da conspiração.
De gangues de leste que alegadamente atacam a região, à abdução alienígena, todas as hipóteses são postas em cima da mesa sempre orientadas para um microcosmos, no qual o jovem cineasta usa a sua cidade e as gentes como peões num jogo entre aparências e realidade. O foco aqui é um pequeno grupo de homens que faz parte da associação de ufologia Ovni-Levante, os quais reúnem-se semanalmente para trocar informações sobre mensagens alienígenas e raptos. Quando o líder dessa associação morre e o filho fica a tomar conta da empresa onde eles se reuniam (a agência imobiliária Inmo-Galaxia), os desígnios do grupo mudam de mãos, ficando José Manuel (Nacho Fernández, soberbo) a liderar este conjunto de “loucos” e a ser o único que possui um segredo que poderá mudar a humanidade.
É nesse momento que o sentimento de estranheza invade o espectador cada vez mais, que perdido entre teorias mirabolantes sente que permanentemente – mesmo sem capacidade de entender o quê especificamente – que as coisas não batem certo e que algo maior está por trás de todo este esoterismo.
Filmado com poucos recursos, mas com maestria no cultivo de terreno fértil para ambiguidades na narrativa e nas suas personagens, fornecendo assim também variações tonais frequentes (o filme vagueia sempre entre a comédia e o drama), Chema Garcia Ibarra consegue produzir um dos filmes mais interessantes da programação desta edição do Festival de Locarno, mostrando que por trás de teorias absurdas e práticas new age podem-se esconder verdadeiros demónios da vida real que abusam da confiança dos outros para executar crimes bem terrenos e horripilantes.




















