Lois Patiño leva “A Tempestade” de Shakespeare aos Açores

(Fotos: Divulgação)

Realizador de filmes comoLua Vermelha” (2020) e Samsara: A Jornada da Alma” (2023), o galego Lois Patiño está de volta às salas de cinema e com uma longa-metragem que teve a sua estreia mundial no Festival de Roterdão e que agora invade a cidade-spa de Karlovy Vary, com tanto de estranheza como magnetismo.

Filmado nos Açores, onde já tinha filmado “Sycorax”, em 2021, numa parceria com Matías Piñeiro, “Ariel” acompanha uma atriz argentina (Agustina Muñoz) que, após uma viagem bizarra onde todos os viajantes caem num feitiço do sono profundo, chega à costa de uma ilha onde interpretará o papel principal do espírito do ar Ariel numa produção teatral de “A Tempestade”, de William Shakespeare. Porém, esse é apenas o início de uma viagem que mescla “realidade e ficção, vigília e sonho, vivos e mortos, como se as personagens fossem fantasmas e estivessem num limbo”.

Estivemos à conversa com Lois Patiño sobre o seu “Ariel”, tendo o cineasta falado sobre a origem do projeto, a escolha dos Açores para as filmagens e o que o move no mundo do cinema.

Depois do sucesso com “Samsara: A Jornada da Alma”, que estreou em Portugal, sentiu algum tipo de pressão para um novo filme, que neste caso foi o “Ariel”?

O “Ariel” nasceu há 7 anos e, inicialmente, iria filmá-lo com o Matías Piñeiro. O “Samsara: A Jornada da Alma” começou a ser trabalhado no mesmo período e foi avançando em paralelo. Terminei primeiro o “Samsara”, mas podia ter acontecido exatamente ao contrário. A saída do Matias Pinero do projeto fez-me assumir a solo o filme, mas quem observar o “Ariel” e o “Samsara” denota que existem elementos reconhecíveis, como o tratamento de imagem, a forma poética, uma certa espiritualidade, mas também uma maior conversa com o teatro e uma maior busca da diversão e comicidade.

E partiu de “A Tempestade” de Shakespeare para criar o “Ariel”. Qual é a sua relação com esse autor?

A minha relação com Shakespeare nasceu da minha relação com o Matías Piñeiro. Tínhamos a ideia de filmar seis filmes em torno de personagens femininas de Shakespeare. Quando pensámos em colaborar juntos, tentamos ver como poderia funcionar esse encontro – tendo em conta o que ele procurava artisticamente no mundo do teatro, com as minhas ideias que vêm mais do olhar para as paisagens, para a antropologia, para o silêncio e a contemplação. Foi em “A Tempestade” de Shakespeare que encontrámos a sua obra com maior presença da natureza e da espiritualidade. Foi por causa do Matias que me interessei em explorar e trabalhar na obra de Shakespeare. 

Nas filmagens de “Ariel” | ©Mariana Lopes

E como foi trabalhar com um elenco vasto de não-profissionais juntamente com profissionais?

Sinto que o filme, no final, se abre a muitos atritos de interpretação teatral e à relação entre as personagens e os atores. Há uma mescla de tons, de códigos interpretativos. Tenho duas atrizes profissionais, a Agustina Muñoz, e a Irene Escolar, que desempenha o papel de Ariel, a qual começa a ter dúvidas existenciais. Além delas, tenho todo um grupo de não-profissionais dos Açores, com quem tivemos um processo de trabalho muito divertido. A proposta do filme, de converter os habitantes desta ilha nos protagonistas de Shakespeare, permitiu que se existissem boas interpretações, as coisas funcionassem, e se existissem más interpretações, igualmente.

Gosta dos “acidentes”, dos imprevistos, durante as filmagens?

Estou muito aberto “aos acidentes” (de interpretação) e a provocá-los. Vou fazer um paralelismo com o mundo do desporto. Há que ter confiança e autoestima para arriscar. Neste caso, um artista para fazer coisas diferentes tem de trabalhar a confiança, fazê-los lidar com um imprevisto, mas não como um erro. Isso torna o filme mais vivo e mais interessante.

Existe sempre uma componente espacial de grande importância nos seus filmes, um olhar atento à força das paisagens. Como trabalha essa relação com a paisagem?

A relação dos meus filmes com o espaço e as paisagens é algo que trabalho à priori. Estar num lugar que me fascine e assombre é algo a que dou muita importância. Tem de haver uma força da natureza, e aqui também climática. A beleza dos Açores, a presença vulcânica, as mudanças permanentes do estado do tempo, atraíam-me. A Ariel é o espírito do Ar e transforma-se no vento e na água… na Tempestade. Os Açores reuniram tudo o que precisávamos. Por outro lado, tínhamos muito interesse em trabalhar  em algo do Shakespeare numa língua que não fosse o inglês. O português dos Açores parecia-nos muito interessante. 

Os seus filmes são igualmente muito vincados esteticamente, por exemplo no uso da cor. É algo que vai pensando durante as filmagens ou surge no pós-produção?

Não pensei nunca no preenchimento de cor da imagem ou em alguma imagem específica que quisesse para o filme durante as filmagens, como fiz nos meus trabalhos anteriores. Durante as filmagens também não tinha em mente as sobreposições, embora soubesse que tal podia acontecer, pois já o tinha feito no “Samsara”. Toda a abordagem poética visual surgiu no pós-produção, no processo de montagem. Interessa-me muito a vertente plástica da imagem, pois surgem muitas coisas boas. A forma como filmamos deixa sempre uma porta aberta a incluirmos recortes da paisagem, o que me permitiu sugerir a existência de uma dupla realidade. Há ali algo mais que o real. O meu trabalho é entre a realidade e a ficção, a vigília e o sonho, os vivos e os mortos, como se as personagens fossem fantasmas, como se estivessem num limbo. Todo o meu trabalho visual ajuda a criar uma ambiguidade e a magia da natureza.

É este o cinema que o atrai? É este o cinema que vai continuar a fazer?

Não me interessa fazer um filme “normal”, prefiro sempre fazer um filme irregular e singular. Um filme que tenha um caráter revelador e não seja apenas um trabalho “perfeito” nas interpretações, na fotografia, etc. Como criador procuro levar a linguagem cinematográfica a novas direções. Prefiro ser um pioneiro e um pioneiro irregular do que fazer um filme “perfeito” que nada traz de novo à linguagem cinematográfica.

Foi uma boa experiência filmar nos Açores?

Foi a segunda vez que filmei nos Açores. Antes deste filme, e com o Matías Piñeiro, realizei uma curta-metragem (Sycorax, 2021) em São Miguel. O “Ariel” foi filmado entre o Faial e o Pico. Os Açores são incríveis. As pessoas são de uma generosidade enorme e as paisagens são espetaculares. As mudanças permanentes do estado do tempo demonstram uma força da natureza inquestionável.

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