Voraz consumidor de sanduíches de marmelada, o ursinho Paddington nasceu da solidão. O seu criador, o autor de livros infantojuvenis e ex-cameraman da BBC Michael Bond (1926-2017), teve a ideia da personagem na véspera do Natal de 1956, ao se deparar com um bicho de peluche abandonado na prateleira de uma loja. A experiência de ter servido nas forças armadas entre 1943 e 1947 (o que tangencia o período final da II Guerra) fez com que ele se lembrasse de crianças sobreviventes do Holocausto ao encontrar um solitário bonequinho à venda. Ele levou o brinquedo para casa, como um regalo para a sua (então) esposa, Brenda Mary Johnson, e, na sequência, já com ambições literárias, investiu na produção de tramas sobre um urso que fosse modelo de bom comportamento. O seu urso é um miúdo vindo da Amazónia peruana, de capa de chuva azul, chapéu vermelho e galochas, que vai parar em Londres. Lá, adotado por uma família inglesa, entra num processo de aprendizagem das regras do Velho Mundo. Ele tem um quinhão de vazio existencial dentro de si, pela ausência que sente da tia, a ursa Lucy, a sua primeira referência afetiva. Apesar disso, frente ao oceano de confusões nas quais se mete (sem querer) acaba por aplacar o seu banzo e dar um mar de alegria aos fãs, da sua literatura e das suas peripécias audiovisuais. A longa-metragem mais recente dessa delicada figura foi um estouro nas bilheteiras de Inglaterra, com direito a Olivia Colman e Antonio Banderas, ambos em estado de graça, no elenco.

Uma faturação estimada em US$ 73 milhões só em terras da Grã-Bretanha atestou a força comercial da terceira longa-metragem estrelada pelo peludíssimo herói, antes bem-sucedido na televisão, numa série exibida pela (já citada) BBC de 1976 a 1993. Ele ganhou ainda um segundo filme, em 2019, que se encontra em streaming na Amazon Prime. No cinema, a sua estreia aconteceu em 2014, com Ben Whishaw (de Passages), a lhe emprestar voz e doçura. O filme inaugural custou US$ 65 milhões e faturou US$ 318,7 milhões. Já o segundo, de 2017, com Hugh Grant (em sublime atuação) no papel do vilão Felix Buchanan, teve orçamento de US$ 40 milhões e rendeu cerca de US$ 290 milhões. “Paddington in Peru” (“Paddington na Amazónia“, em Portugal; “Uma Aventura na Floresta“, no Brasil) tem fôlego para render cifras similares – ou maiores.

Numa mescla de live-action com figuras animadas digitalmente, Paddington na Amazóniafoi escrito por Mark Burton, Jon Foster e James Lamont, com base em argumento de Paul King e Simon Farnaby, a evocar traços da franquia “Indiana Jones”. O enredo é repleto de perigos silvestres, de quedas d’água a pedregulhos que esmagam as pessoas, lhamas peruanos e… ursos. Phoenix Buchanan faz uma participação meio que relâmpago no final, que é impagável. O teor de comicidade é alto, graças ao equilíbrio de registos de género (comédia, épico e melodrama) propostos pelo seu realizador, Dougal Wilson, que vem da publicidade e dos videoclipes. Para a sorte do cineasta, no seu desejo de entregar à cinefilia um espetáculo bem-humorado, a sua equipe de casting (produção de elenco) trouxe o ímã de esgares Hugh Bonneville para viver o patriarca dos Brown, Henry, um paizão profissional.

   
Viçoso plasticamente, graças ao colorido rebuscado da fotografia de Erik Wilson, “Paddington na Amazónia” acompanha a viagem do seu protagonista até o coração da Pangeia latina, nas matas sul-americanas. Ele parte pela América adentro a fim de visitar tia Lucy (interpretada por Imelda Stauton lá fora) no Lar para Ursos reformados. De acordo com a freira nada ortodoxa que dirige o abrigo, a Reverenda Madre (papel de Olivia Colman), a senhorinha perdeu-se na imensidão verde que a cerca.

Após uma hilária visita ao departamento de imigração, onde se atrapalha para tirar passaporte, Paddington esbarra num piloto de barco, o capitão Hunter Cabot (Banderas), e a filha, Gina (Carla Tous). Contrata o serviço náutico do sujeito para ajudá-lo na expedição em busca de Lucy, mas não imagina que Hunter parece ter segundas, terceiras e quartas intenções nesse trabalho rio acima. As lendas do Eldorado, terra mítica onde as quedas de água vertem ouro, levam o marujo a farejar possíveis fortunas nessa missão parental dos Brown.

Em meio a múltiplos perigos, Paddington reafirma a sua (e a nossa) crença no companheirismo. Dela brota um filme de férias para ser visto e revisto com um sorriso no rosto. Na versão que foi dobrada para Portugal, destacam-se as vozes de Luís Franco-Bastos, Paulo Oom e Claudia Cadima. Já na versão para o Brasil, “dublada” (como se diz “dobragem” lá), temos Bruno Gagliasso (o vilão de “Marighella”), Marco Ribeiro e Lina Rossana na trupe vocal.  

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
paddington-na-amazonia-um-indiana-jones-de-peluciaViçoso plasticamente, graças ao colorido rebuscado da fotografia de Erik Wilson, “Paddington na Amazónia” acompanha a viagem do seu protagonista até o coração da Pangeia latina, nas matas sul-americanas.