Tal como os coelhos que dão título ao filme e que por aqui são usados para estimular um conjunto de cães num jogo de caça, Musa (Alpay Kaya), um pequeno rapaz, sente-se aprisionado a um mundo de violência e de jogatanas sujas para servir não só o seu pai, Beko (Sermet Yeşil), mas igualmente o cérebro por trás de uma série de esquemas para surripiar fundos. Esse “cérebro” e “músculos” é Muzaffer (Era uma vez na Anatólia), um homem que além de orquestrar o tal jogo de caça ilegal é diretor de uma escola onde muitos dos alunos são convencidos a passarem por pessoas com deficiência para a instituição receber apoio estatal, que por sua vez também chega aos familiares dos alunos.

Perdido num mundo adulto moralmente corrompido, assediado na escola por colegas violentos e em casa pelo pai, Musa tenta passar incólume para a idade adulta com o coração no lugar. Por isso mesmo, durante o dia, ele passa o seu tempo a salvar coelhos das armadilhas, escondendo os animais numa gruta que se torna o seu “império”. Ninguém conhece este esconderijo, um verdadeiro espaço seguro que Musa criou, mas a pequena Nergis (Perla Palamutçuoğullari), que anda na mesma escola que Musa e até o ensinou a falsear uma deficiência física, é convidada pelo rapaz para o seu mundo secreto, acabando por se juntar a ele na cruzada de fazer sobreviver a benevolência e a virtude no meio da tragédia moral adulta.

Assinado por Seyfettin Tokmak, conhecido pelo documentário “Dream Gang” e a ficção “Kirik Midyeler”, além de um vasto conjunto de séries televisivas, “Empire of The Rabbits” funciona como uma fábula negra repleta de simbolismos e alegorias. Reside nas crianças o raio de esperança e Tokmak faz uso do expressionismo para criar uma fuga ao real de forte carga poética, muito por responsabilidade do trabalho da diretora de fotografia, Claudia Becerril Bulos, que consegue deformar a realidade para expressar de forma subjetiva a natureza e o ser humano no seu lado mais brutal. Por isso mesmo, a iluminação é colocada nos mínimos quando invadimos a gruta de Musa e observamos, que nem numa tela “au naturel”, o reflexo de uma árvore na caverna, tornando o espaço de Musa um recanto verdadeiramente mágico.

O tom sombrio caminha sempre nas imagens que nos chegam (e colam) à retina, seja nesses locais interiores, seja na imensidão da paisagem exterior, tornando minúscula a presença humana perante a majestosidade em seu redor, mas ainda assim impactante e controladora de tudo.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
empire-of-the-rabbits-manter-a-virtude-no-meio-da-corrupcao-moral“Empire of The Rabbits” funciona como uma fábula negra repleta de simbolismos e alegorias. Reside nas crianças o raio de esperança e Tokmak faz uso do expressionismo para criar uma fuga ao real de forte carga poética