Fonte de grande controvérsia no Tallinn Black Nights deste ano, “Deaf Lovers” coloca dois jovens que comunicam por linguagem gestual, uma ucraniana e um russo, a viverem momentos apaixonados em Istambul enquanto a guerra entre os dois países ecoa, tanto nas notícias da TV, como nas vidas familiares de cada um. Mal foi anunciado na programação do certame, esta produção entre a Estónia e a Sérvia, realizada pelo russo radicado na Alemanha Boris Guts, provocou uma onda de protestos nas redes sociais e a intervenção de diplomatas ligados aos dois países, levando mesmo a diretora do festival a ter de realizar uma conferência de imprensa apressada antes da exibição do filme, para contrariar a ideia de estarmos perante um exercício cinematográfico pós-verdade.

Com esta enorme atenção mediática, “Deaf Lovers” ganhou um hype desmedido (o fruto proibido é o mais apetecido), o qual acabou por o prejudicar pois, com as atenções centradas nele e no seu tema, as expetativas aumentaram e as suas falhas e exageros simbólicos tornaram-se mais evidentes. Do cabelo azul e roupas amarelas da jovem interpretada por Anastasia Shemyakina, à exposição frequente do seu corpo nu e vulnerável, ao facto do irmão do rapaz (Daniil Gazizullin) ter sido castrado quando esteve captivo, tendo se suicidado depois, não esquecendo o uso da música punk-harcore como elemento que reflete o turbilhão em que os dois se encontram, “Deaf Lovers”  é sempre preenchido por uma intensa carga simbólica, enquanto na sua forma de mostrar a impossibilidade do amor de duas personagens perante as barreiras geopolíticas e pessoais, mesmo usando a cidade turca como um limbo existencial, não passa de material derivativo pós-shakespeariano.

Com uma estética indie que se rende frequentemente ao cartão postal e que cai ainda numa busca, também ela simbólica, de um erotismo que se quer apresentar de forma natural, “Deaf Lovers” soa principalmente a material requentado com as dores políticas atuais, que só durante algum tempo são esquecidas através de diversão e bebedeiras fúteis por parte dos protagonistas, os quais se conhecem num café, vão passear, e decidem passar a noite (ou cem anos) juntos. Reside na utilização do som, ou ausência dele, a maior conquista desta produção, tudo enquanto os atores se entregam de corpo e alma a um objeto cinematográfico que se apresenta mais como um manifesto de alienação que aproveita o tema quente do momento para apontar holofotes ao cineasta, do que ser efetivamente reflexivo nas questões que aborda.

A cena final, onde vemos a jovem a carregar uma mala de viagem por uma escadaria acima revela em si, sem demais explicações, todo o carácter demasiado pensado (ou fabricado) do filme, que no final chega até nós de uma forma artificial em que um amor impossibilitado é quase uma “lição” e não uma emoção devastadora para qualquer um dos intervenientes.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
deaf-lovers-desamor-em-tempos-de-guerraCom uma estética indie que se rende frequentemente ao cartão postal e que cai ainda numa busca, também ela simbólica, de um erotismo que se quer apresentar de forma natural, “Deaf Lovers” soa principalmente a material requentado com as dores políticas atuais