É minúsculo o exercício de subtileza proposto por Trap” (“Armadilha”), do indiano radicado emFiladélfia Manoj Nelliattu (M. Night) Shyamalan, mas o pouco que nele existe de subtil ganha uma proporção agigantada numa trama (en)levada por uma tensão extrema, do início ao fim. Soa exótico o facto de um filme de suspense sobre um psicopata torturador chamado Butcher (Talhante/Açougueiro) não ter sangue e quase não apelar para exposições gráficas da brutalidade. Há dois pontos nos quais a discrição (leia-se maturidade) do realizador de “Signs” (2002) se faz notar com mais relevo. Num momento, o assassino Cooper, brilhantemente interpretado por Josh Hartnett, ajeita um tecido, desalinhado, em meio a um momento de extremo risco, num indício do seu controle cartesiano do mundo. Noutro, as forças da lei mostram aos seus agentes (num ângulo livre de qualquer pornografia sanguínea gore) fotos dos cadáveres oriundos das carnificinas praticadas pelo protagonista, de modo a apresentar (discretamente) para a plateia o potencial de periculosidade da personagem.

Há mais algumas (boas) sacadas como essas ao longo de 1h45 de adrenalina, embora Shyamalan se exceda de modo descuidado a lidar com a verossimilhança. Algumas soluções encontradas pelo guião ultrapassam qualquer lógica, até a da suspensão da descrença. Ainda assim, o espetáculo técnico que se descortina diante do olhar é de uma maestria hitchcockiana.

Sabe-se de caras que Cooper, um bombeiro, tem máculas na alma. Ele leva a filha, Riley (Ariel Donoghue), a um concerto da popstar Lady Raven (Saleka Shyamalan, filha de M. Night) e, lá, ao ver uma agitação de policias e de representantes do FBI, sente-se desconfortável. Ao apurar o que se passa com um vendedor (o divertido Jonathan Langdon), descobre que há um cerco armado para a captura do serial killer The Butcher. O FBI soube que ele estaria lá… e, de facto, está. Ao se ver encurralado, ele tenta fazer com que o jogo volte a seu favor, um pouco como se viu em “Rope” (1948), de Hitchcock. Os dois filmes se assemelham na claustrofobia e no facto de acompanharmos um leque de estratégias de quem matou.

Os estratagemas de Cooper – descritos por Shyamalan com uma gramática de close-ups– certas vezes desafiam os limites racionais e as fronteiras da física no uso da destreza, mas o carisma de Hartnett (no seu melhor desempenho) atenua as “licenças poéticas” de Shyamalan. A sua aguda direção é pontuada por marcas autorais, assim como a sua dramaturgia. A principal delas é um uso contínuo de twists (bruscos) no roteiro, quebrando expetativas e traindo as suas próprias verdades. A recorrente reflexão da sua obra que as aparências enganam – e os rituais sociais, também – dá o tom deste ensaio sobre o lado feral da condição humana. Ensaio fotografado por Sayombhu Mukdeeprom em cores quentes e enquadramentos metonímicos que dão mais valor a detalhes do que a planos abertos.

Orçado em 30 milhões de dólares,Trap é o segundo trabalho de Shyamalan desde que presidiu o júri do Festival de Berlim, em 2022, quando entregou o Urso de Ouro à catalã Claire Simon por “Alcarràs”. Antes, ele lançou “Knock At The Cabin”, em 2023. Antes, fez sucesso com “Old”, uma produção de 18 milhões de dólares que arrecadou cerca de 90 milhões.

A sua faturação foi uma prova do quanto Shyamalan soube se adaptar à realidade dos temas e das patrulhas morais da contemporaneidade para preservar a sua fama como campeão de bilheterias. Fama que já se perdeu, passando uma década distante da sua rotina de êxitos, entre 2006 e 2014, até ele conseguir se reinventar. Reinvenção é uma arte na qual ele é um mestre. Depois de ter caído em desgraça com o injustiçado “Lady In The Water” (2006), ele amargou cerca de dez anos da mais peçonhenta rejeição até se recriar a partir da televisão, com “Wayward Pines” (2015), apoiado no carisma de Matt Dillon. Ali, após uma fase de aspirações a blockbusters aos quais o público tinha a mais dura indiferença, ele redescobriu o prazer de filmar com baixos orçamentos e pura liberdade. Foi essa a sua realidade em “The Visit” (2015), um exercício autoral da carpintaria de sustos, com o qual ele redescobriu as engrenagens do terror a partir das quais havia despontado para o estrelato, com “The Sixth Sense” (1999). De volta às veredas do temor e do tremor, onde o seu nome virou marca, ele se reencontrou, na plenitude da sua potência estética, e recuperou a tarimba de abocanhar gordas bilheteiras, com um soberbo trabalho díptico: “Split” (2017) e “Glass” (2019). Os dois formam uma trinca com “Unbroken” (2000) e vieram carregados de elogios, a maioria voltados para a condução febril do enredo sobre um sujeito com 23 personalidades que sequestra três mulheres e acaba atraindo as atenções de um vilão chamado Sr. Vidro (Samuel L. Jackson).

A medida do seu sucesso está em números: estes dois últimos filmes arrecadaram um total de 548 milhões de dólares juntos. “Trap” não arrancou bem nas bilheteiras e dividiu a crítica, mas os fãs marcaram presença. Ecos de “Psico” (1960) trovejam pela narrativa adentro, fazendo justiça à comparação entre Shyamalan e a práxis cinemática de Hitchcock, no que envolve a opção por sugerir em vez de escancarar, de criar atmosferas ao invés de apelar para um grafismo pornográfico da violência. Torsões abruptas de guião – o trunfo dos seus primeiros filmes – ficaram para trás. É na imagem que ele encontra o diferencial de narrativa e de sedução, como se vê na saga de Cooper. Saga que cresce quando Alison Pill entra em cena, a encarnar a companheira do nêmese interpretado por Hartnett. Ela é a medida de toda a sua dualidade de lobo em pele de cordeiro.

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Rodrigo Fonesa
trap-enreda-o-olhar-no-primor-da-tecnicaÉ minúsculo o exercício de subtileza proposto por “Trap” (“Armadilha”), mas o pouco que nele existe de subtil ganha uma proporção agigantada numa trama (en)levada por uma tensão extrema, do início ao fim.