Já com duas décadas de carreira na realização, Aleksey Fedorchenko tem deixado a sua marca experimentalista autoral no cinema, particularmente nas suas incursões híbridas pseudo-documentais, como vimos em “First on the Moon”(2005), onde a partir de falsas imagens de arquivo “reconstruiu” como os russos realizaram secretamente o primeiro voo tripulado à Lua já na década de 1930, e “Big Snakes of Ulli-Kale” (2017), onde abordava as relações entre a Rússia e o Cáucaso.
Agora, o cineasta mais conhecido em Portugal pelo “filme calendário” de 2012 “Esposas Celestiais”, que mostrava 22 contos sobre mulheres Mari entre a magia e o realismo, repete a fórmula, mas não a forma, em “New Berlin”, que podemos descrever como vários filmes num, cuja ligação é feita pelo próprio cineasta em cena, num barco a caminho do ártico, prestes a fazer amizade com um guaxinim. Confusos? Nós também, por isso tivemos de ver o filme duas vezes.
Tudo começa com a história de um alegado cineasta (Sergey Kolesov) que viaja para a Colômbia com a filha (Daria Konyzheva) de intensos cabelos ruivos para resolver o mistério do desaparecimento da sua irmã Bertha, uma das quinhentas virgens desaparecidas a bordo do navio “Glória“, que partiu da Colômbia em 1956, mas não deixou rasto. Através de entrevistas a residentes no local, o cineasta vai seguindo pistas rumo à verdade, que sabemos logo no verdadeiro início do filme, numa escola de cinema russa, não existe em cinema, mas sim a “verdade” a partir de um olhar cinematográfico e do autor. No filme, dentro do filme, continuamos a seguir as pegadas do cineasta e da filha, mas quando o destino leva o primeiro a Marselha, as coisas complicam-se, pois ele separa-se da jovem que, por sua vez, desaparece também.
E daqui partimos para o segundo filme, sabendo que o primeiro – o do realizador e da filha na Colômbia – foi montado pelos próprios alunos da escola de cinema. Nesta segunda leva, o foco são imagens enigmáticas supostamente encontradas num berçário de guaxinins, que nos levam a uma suposta cidade construída secretamente pelos nazis sobreviventes sob o gelo do Ártico, sendo o próprio Fedorchenko, que sobe ao palco da sua experiência, a fazer a ligação.

Extremamente inventivo, “New Berlin” foge do storytelling tradicional para nos levar para outro comprimento de onda da arte de contar histórias, onde o desconexo se conecta, e o conectado entra em desconexão. Desafiante como um puzzle ou matriosca cinemática, o filme explora diferentes formas de atuação e de fazer cinema, ora num registo moderno de filmagens de câmaras portáteis de um suposto realismo do dia a dia, ora de câmara fixas com evocações tradicionais de génese teatral e cuidado na mise-en-scène. Mas o mais saudável e inspirador disto tudo é que o filme, no seu todo, que contém filmes dentro dele mesmo, nunca se sente uma salganhada pretensiosa, mas antes como se um cientista fílmico explorasse formas, artifícios e ferramentas num ato de procura de expandir a linguagem.
O resultado de tudo é alucinante, como se fossemos transportados para uma realidade paralela sem manias de grandiloquência ou grande arte. E nesse processo, da escola soviética à geração redes sociais, passando por momentos à la Roy Andersson, Aleksey Fedorchenko deixa a sua marca inequívoca de arrojo em procurar ir além de fórmulas e catálogos.



















