Inspirado livremente no romance “Steppenwolf”, de Hermann Hesse, e incutindo uma força estética e narrativa dos westerns de John Ford e Howard Hawks, em particular, “The Searchers” e “Red River” (há cópias de planos e sequências ‘descaradas’), o cineasta cazaque Adil Khan Yerzhanov ensaia um objeto de ultra-violência e toxicidade em plenas estepes, com bons, maus e vilões em confrontações implacáveis.

Esteticamente impecável, agarrando-se em jeito de homenagem a Ford e Hawkes, mas também ao espírito dos samurais e ronins de Kurosawa,  Yerzhanov coloca o caos em cena logo a abrir, com agentes da lei, rebeldes, gangsters, mercenários e população reivindicativa em profundo alvoroço, num ambiente de quase de guerra civil. Às camadas inspiracionais já descritas, o realizador acrescenta um toque Tarantinesco e cercos à la Carpenter, produzindo assim um espetáculo visual de violência pop capaz de atrair mais público propenso a este cinema, sem perder a sua força de autor.

Seguindo particularmente a jornada de dois anti-heróis atípicos, um mercenário fanfarrão de má índole, protegido pelas costas da lei ou do gangstarismo, e uma mulher com um problema de fala, ambos no encalço do filho desta que poderá ter sido raptado por um gangue de tráfico de órgãos, Yerzhanov faz um show off em terras cazaques num registo que por vezes parece um “John Wick” no mundo “Mad Max”, influências que também derivam das leis (ou falta delas) no velho oeste. O resultado é uma viagem ao primitivo, ao desincrustar de qualquer moral e razão em função do instinto de sobrevivência primário, até novamente se reconstruir sem qualquer forma de redenção o plano maquinal e cerebral do homem.

Visualmente poderoso, com destaque para a direção de fotografia de Yerkinbek Ptyraliyev e montagem a quatro mãos de Arif Tleuzhanov e Adilkhan Yerzhanov, “Steppenwolf” é assim um bom regresso a Roterdão do realizador de “Assault” e do excelente “A Dark, Dark Man”. Os fãs da ultra-violência de contornos pop vão vibrar, ainda que sintam que já viram tudo em qualquer outro lado.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
steppenwolf-adil-khan-yerzhanov-entre-hermann-hesse-john-ford-e-howard-hawksVisualmente poderoso, “Steppenwolf” é assim um bom regresso a Roterdão do realizador de “Assault” e do excelente “A Dark, Dark Man”