Catártica e estrondosamente silencioso, “Longlegsassumiu o posto de sleeper (rótulo dado a filmes do qual pouco se espera, mas que ficam semanas, às vezes, meses a fio em cartaz) entre as estreias de baixo orçamento do cinema americano de 2024, apoiado na adesão fervorosa de público e crítica. Osgood Perkins, o realizador, é um ator de vasta quilometragem nas salas de cinema, que já havia rodado longas-metragens eficazes antes, como “The Blackcoat’s Daughter” e “Gretel & Hansel”. Ambos se destacam por uma aposta radical em ângulos de câmara pouco ortodoxos e pela recorrente necessidade de contemplar as paisagens onde se passam. É como se o ambiente fosse o vetor de desestabilização das personagens do cineasta, que é filho do astro Anthony Perkins (1932–1992), o eterno Norman Bates. Efeito desestabilizador similar acontece com a agente recém-chegada ao FBI Lee Harker (Maika Monroe), operacional designada para investigar uma série de mortes brutais alinhavadas por uma assinatura deixada como evidência na cena dos crimes: Longlegs.

Em frias e silvestres paragens do Oregon, uma quietude sufocante, quebrada apenas por sinais ruidosos de um psicopata, vão levar Lee a descobrir o pior de si, do seu passado, de seu ofício. Em contrapartida, ali, nas telas, Maika revela-se uma atriz em ponto de maturidade, capaz de extrair fragilidades das situações mais banais da figura da lei que constrói a investir em dilemas existenciais, dúvidas, perplexidades.

Rodado em terras canadianas, em Vancouver, em 2023, com orçamento de 10 milhões de dólares, “Longlegs” faturou 100 milhões de dólares em cerca de 40 dias em cartaz, arrebatando comparações com “The Silence of The Lambs” (1991). Embora na película de Osgood não haja nenhum canibal, a analogia entre ela e o sucesso de Jonathan Demme (1944-2017) se dá no paralelismo entre as figuras de Lee e Clarice Starling, investigadora que valeu um Oscar a Jodie Foster. As duas, ambas agentes federais, precisam vasculhar memórias dolorosas e (tentar) fazer as pazes com elas a fim de decifrar a ação de um criminoso capaz de monstruosidades. As duas tinham chefes exigentes, com aura de tutor, nos seus calcanhares. A diferença é que Starling contava com as dicas dadas por um psicanalista acusado de devorar as suas vítimas, Hannibal Lecter (Anthony Hopkins). Lee só se tem a si, auxiliada por um certo grau de clarividência, mais próximo de uma sensitividade.


O seu dom jamais é explorado no (cirurgicamente) eletrizante guião escrito por Osgood como um superpoder Marvel. É apenas uma sensitividade aguçada, que a leva a ter certezas (bem embasadas) onde os seus colegas apenas encontram suspeitas. Essa habilidade atrai a curiosidade (e um certo grau de confiança) do seu superior, Carter (Blair Underwood, em vívida performance). A mando dele, Lee passa a investigar o caso Longlegs, que devolve ao cinema hollywoodiano de suspense a hipótese (há muito perdida) de acreditar num Mal místico, ou seja, em expressões do sobrenatural. Filmes de culto dos anos 1990, sobretudo o seminal “Se7en” (1995), de David Fincher, e o próprio “O Silêncio dos Inocentes” jogaram a fantasia (mesmo a mais sombria) para fora do género, confinando-a ao terror, um outro meio de expressão das heranças do Grand Guignol.

Não por acaso, Osgood ambienta a sua narrativa na era Bill Clinton idos de 1993, 1994), com um prólogo nos anos 1970, quando Lee é uma criança. Menina ainda, aos 9 anos, ela travou contato com um sujeito de alvíssima expressão facial, de falar estridente, dado a cantorias e a falas enigmáticas. Tudo leva a crer que esse homem seja Dale Kobble, um satanista que assume a alcunha de Longlegs. Essa criatura, construída no roteiro de Osgood como um monstro com feições de Pierrot, arranca de Nicolas Cage uma atuação sumptuosa, capaz de explorar (bem) até seus tiques de atuação mais irritantes.

Não existem certezas de quem Kobble seja ou do que fez, mas ele pode ser a chave para entender uma série de massacres nos quais os pais de família são levados a executar a sua prole brutalmente (a machadadas até), em circunstâncias que envolvem símbolos ligados ao culto ao Demónio. Cada um desses assassínios envolve clãs nos quais estão, entre os seus integrantes, uma menina prestes a completar 9 anos, e que faz anos no dia 14 (seja de que mês for). Lee começa a analisar esses códigos mortais sempre pelo prisma da estranheza, até ser contemplada com uma carta do próprio Longlegs. A missiva leva-a a procurar a mãe, uma figura soturna no seu fervor religioso, chamada Ruth, e vivida com subtileza por Alicia Witt. É difícil olhar para ela sem nos lembrarmos da figura materna de “Carrie” (1976), vivida por Piper Laurie num sinistro desempenho. Ruth não deixa nada a desejar ao clássico de Brian De Palma e, pouco a pouco, na sinuosa grafia fílmica de Osgood, passa a tomar a saga de Lee para si e redesenhar o que nós vemos e o que esperamos.

Numa atmosfera sempre tensa, no qual o segredo é um tempero rascante, exigindo de quem vê (e de quem o analisa) cuidado com spoilers, “Longlegs refastela-se na aeróbica de câmara do diretor de fotografia Andrés Arochi, com direito a planos quadrangulares, supercloses e grande angulares.  Apoiado na presença radiante de Cage em cena, a fita oxigena o filão ao abrir uma discussão sobre as manifestações da Maldade num mundo cético. Numa conexão parental histórica com “Rosermary’s Baby” (1968), a longa metragem consegue recontextualizar a presença do Diabo (ou melhor, dos seus adoradores) nos écrans.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonesa
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