Asghar Farhadi sugere ao Irão retirar “A Hero” da corrida aos Oscars

(Fotos: Divulgação)

O realizador Asghar Farhadi publicou no Instagram uma carta aberta, na qual afirma que se o governo estiver a usar a escolha do seu “A Hero” para a corrida ao Óscar de Melhor Filme Internacional como forma de reivindicar o cineasta como um dos seus (apoiantes), o filme deverá ser retirado da nomeação oficial do país.

A carta surgiu como resposta a uma pessoa não identificada que afirmou que Farhadi é “pró-governo” e “anti-governo” ao mesmo tempo. Farhadi rejeita essa noção e enumera várias razões. “Como pode me associar a um governo cuja Media extremista não mediu esforços para me destruir, marginalizar e estigmatizar nos últimos anos?” escreveu Farhadi (via tradução do Vulture). “Um governo para o qual deixei clara a minha opinião sobre o sofrimento que causou ao longo dos anos – desde os acontecimentos de janeiro de 2017 e novembro de 2019, à amarga e imperdoável tragédia que causou o assassinato dos passageiros do avião ucraniano, da cruel discriminação contra as mulheres e meninas, à maneira como o país permitiu que o coronavírus massacrasse seu povo.

Durante muitos anos, acusaram os meus filmes de serem‘ falsos ’, e agora é incrível ver vocês a fazerem o oposto”, Farhadi escreve sobre o governo. “Se até agora permaneci calado sobre as perseguições que me infligiram, é apenas porque quis concentrar-me no meu trabalho, no qual realmente acredito. (…) Se a indicação do meu filme ao Oscar levou-o à conclusão de que estou em dívida com o governo, declaro explicitamente que não tenho nenhum problema em que revertam essa decisão. Já não me importo com o destino do filme que fiz com todo o coração. Seja dentro ou fora do Irão, este filme viverá em seus méritos ”.

Asghar Farhadi

Estreado no Festival de Cannes, “A Hero” transporta o espectador numa travessia pela moral e ética no Irão atual através da história de um condenado que, durante uma saída precária da cadeia, descobre uma mala cheia de moedas de ouro. Quando ele decide devolver a mala ao seu dono, é instantaneamente transformado num herói local, despoletando a atenção da imprensa e das redes sociais, mas também do homem a quem pediu dinheiro emprestado no passado e a quem nunca pagou, o que o levaria a ser detido e encarcerado.

É inevitável a imprensa dar destaque a estes ‘heróis’. A imprensa procura sempre estas peças quentes sustentadas pelas emoções, que atraem muitos espectadores. O que é interessante ver é o poder que é dado a estes indivíduos devido a um momento das suas vidas e analisar tudo o que vem atrás, nomeadamente as expetativas que são criadas em torno destas pessoas”, disse Farhadi ao C7nema em Cannes sobre o seu filme. “Depois disso, espera-se que eles sejam heróis em todos os aspetos da sua vida e a todo o momento [o que não acontece de todo com o nosso protagonista]. É por isso que surge a queda logo após a ascensão meteórica à condição de herói e isso traz muito sofrimento a essas pessoas. Investiguei com alguns alunos meus de um workshop histórias assim, e essas pessoas mostravam-se muito desapontadas e até deprimidas. Inicialmente foi-lhes dado inesperadamente um estatuto de heróis e depois rapidamente tiraram-lhes esse título porque nem todos os aspectos da sua vida são heróicos. Esta experiência para eles foi muito violenta. A ideia neste ‘A Hero‘ é mostrar que na verdade não existem heróis e não devemos esperar que as pessoas sejam perfeitas em todos os aspectos das suas vidas, isto depois de serem amadas e consagradas por uma atitude isolada que tiveram no seu dia a dia.

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