Autor de livros seminais para o entendimento das narrativas de não ficção, como “Sete Faces de Eduardo Coutinho” e “Cinema de Fato”, Carlos Alberto Mattos, um dos críticos de maior prestígio na América Latina, aportou os seus conhecimentos sobre Tempo e Espaço no âmbito da imagem para montar com Carla Italiano e Bebeto Abrantes o conjunto de 12 debates da edição 2021 do seminário online Na Real_Virtual.
Em meio à paralisação presencial das atividades culturais do Brasil, em 2020, decorrente da pandemia da covid-19, o evento surgiu na web como um oásis de reflexão acerca das narrativas audiovisuais, adotando o documentário como objeto de estudo. O êxito da primeira edição – pela qual passaram titãs do formato como Maria Augusta Ramos, João Moreira Salles, Cao Guimarães e Petra Costa – foi tanto que houve uma continuidade nos meses finais do ano passado, mobilizando mais uma leva de cineastas de prestígio mundial como Lucia Murat, Joel Zito Araújo, Eryk Rocha, Susanna Lira e Walter Salles.
A reverberação dos colóquios foi tanta que uma nova edição foi estruturada para 2021, reunindo 24 vozes autorais de diferentes gerações, para discutirem o pensar/fazer documental. A programação segue até o dia 10 de dezembro, sempre às 19h (23h em Lisboa), ambientados na plataforma Zoom, via Sympla. O site traz todas as informações dos debates, produzidos por Kerlon Lazzari, via Associação Imaginário Digital e a Supimpa Produções. Para a abertura, a curadoria organizou uma conversa entre Eliza Capai – diretora laureada na Berlinale de 2019 com o prémio da Amnistia Internacional por “Espero a tua (re)volta” – e o campeão de bilheteiras Silvio Tendler (“Jango” e “Anos JK”), papa do cinema historiográfico.

Sexta-feira o evento segue, reunindo Theresa Jessouroun e Cristiano Burlan, num debate batizado de “O corpo como alvo”. As próximas conversas serão: dia 10) Marcos Pimentel e Marília Rocha; no dia 12) Tetê Moraes e Camila Freitas; no dia 17) Geraldo Sarno e Henrique Dantas; no dia 19) João Batista de Andrade e Toni Venturi; no dia 24) Allan Ribeiro e Letícia Simões; no dia 26) Eduardo Escorel e Carlos Adriano; no dia 1º de dezembro, Orlando Senna e Cavi Borges; no dia 3 Dez.) Sandra Kogut e Aline Motta; no dia 8 Dez.) Jom Tob Azulay e Ana Rieper; no dia 10 Dez.) Jorge Bodanzky e Takumã Kuikuro.
Na entrevista a seguir, Mattos explica ao C7nema que factores quotidianos reverberam pelas veredas documentais.
Que Brasis integram o recorte do Na Real em 2021 e que estéticas documentais se destacam na seleção desta nova edição?
Como nas edições anteriores, a programação pretende contemplar a diversidade do documentário brasileiro. Assim, estarão ali os brasis branco, negro e indígena, assim como o país das grandes tragédias históricas, das imensas desigualdades sociais e da cultura híbrida que gera génios como Santos Dumont e Dorival Caymmi. Em relação às estéticas documentais, o encontro de nomes veteranos com talentos de gerações mais novas permitirá uma ótima discussão sobre linhas de ruptura e de continuidade na maneira de os cineastas brasileiros se defrontarem com o real.
De que maneira a pandemia já se apresenta como tema para o documentário brasileiro – e para os debates do seminário? Que impactos a covid-19 e o contágio – com os confinamentos todos pelo país e o mundo – afetaram o cinema documental temática e formalmente? O recente boom da streaminguesfera, a reboque do isolamento pandémico, deu novas visibilidades ao consumo de documentário, pelas plataformas? Como? O que mudou?
Já temos hoje um novo paradigma na captura do mundo em função do distanciamento social e das virtualidades todas. O chamado “cinema da pandemia” já vem se diversificando e exigindo dos realizadores uma constante reinvenção de abordagens e formatos. O mais novo filme de Sandra Kogut, por exemplo, traz a Covid 19 como tema e também como restrição formal com a qual é preciso lidar. De certa forma, o documentário vem se beneficiando do streaming pela facilidade de acesso e a urgência com que trata dos temas da atualidade. As circunstâncias políticas brasileiras, com o horror instalado desde o golpe de 2016, têm encontrado no documentário um canal potente de discussão e reverberação.

Na edição passada, falou-se muito em “dispositivos”, em “ética” e em “acompanhamento”, na maneira de se olhar o documentário feito hoje no Brasil. De que forma essas três palavras podem ser aplicadas ao coletivo de vozes autorais desta edição?
Esses três conceitos são indissociáveis da prática documental. Da mesma forma, as noções de experimentação, resistência, engajamento, subjetividade e empatia também são íntimas da experiência dos documentaristas brasileiros do período moderno (anos 1960) à atualidade. Acredito que o elenco reunido nesta edição do Na Real_Virtual terá muito a dizer sobre todos esses aspectos, a par de suas diferentes aproximações com o fazer documental.
A questão “arquivo” é um tema recorrente na prática e na análise do documentário. E essa palavra ganhou um contexto político ainda mais urgente depois que os arquivos da Cinemateca Brasileira foram colocados sob ameaça, diante do sucateamento da cultura. De que maneira o seminário pretende abordar a questão da memória, asua preservação, e a questão da Cinemateca?
Parece-me inevitável que a situação atual da cultura brasileira venha à tona em vários, se não todos os nossos encontros. E o descaso do governo federal com os acervos certamente estará na pauta das discussões. Independentemente disso, teremos um encontro em especial para discutir a questão dos arquivos. Eduardo Escorel e Carlos Adriano são dois cultores do chamado found footage e dos trabalhos com a memória cinematográfica. Nos seus diferentes tratamentos e distintos interesses pelos arquivos, eles certamente irão dimensionar a importância da preservação para que novas obras cheguem à luz.

