Americano de Peekskill, Nova Iorque, onde nasceu em 3 de janeiro de 1956, Mel Gibson cresceu na Austrália de Peter Weir, o primeiro dos realizadores com status autoral que o abraçaram como estrela e o ensinaram a construir um olhar particular – e provocante – no comando de um set. A sequência de grandes nomes que rodaram com ele – George Miller, Gillian Armstrong, Richard Donner, Wim Wenders, Franco Zeffirelli, Robert Towne, John Badham – é vasta e plural, o que lhe assegurou combustível estético para investidas na realização. A fama que a franquia “Lethal Weapon” (1987-1998) lhe assegurou à frente das câmeras – lado a lado com Danny Glover, Rene Russo e Joe Pesci – permitiu que arriscasse projetos pessoais. Com “Braveheart”, em 1995, ele redimensionou o seu status artístico à força de cinco Oscars, de uma arrecadação monetária de US$ 213 milhões e de uma inegável potência para a condução de planos épicos – sobretudo situações violentas. O berro “Freedom” da sua personagem, o revolucionário William Wallace, celebrizou aquele blockbuster histórico na década de 1990 e consolidou uma outra destreza de Gibson: produzir. A sua Icon Productions transformou-se em sinónimo de êxitos, potencializada por “The Passion of the Christ” (A Paixão de Cristo), uma (colossal) adaptação do Evangelho que custou US$ 30 milhões e arrecadou US$ 612 milhões cercada de protestos e polémicas. Goste-se ou não do seu simbolismo (e do seu fervor), ele atesta o dinamismo de mise-en-scène do ator como cineasta, o que volta a causar boa impressão em “Flight Risk – Voo de Alto Risco” (Flight Risk – Voo de Alto Riscopt; Ameaça no Arbr).
As longas-metragens anteriores de Gibson, “Apocalypto” (2006) e (o hipócrita) “Hacksaw Ridge” (O Herói de Hacksaw Ridgept; Até o Último Homembr), tinham uma medula de grandes produções, mesmo sem orçamentos altos (US$ 40 milhões cada). “Flight Risk”, não. Com orçamento estimado em US$ 10 milhões (algumas fontes falam em US$ 26 milhões), o thriller aéreo pilotado pelo primeiro (e eterno) Mad Max tem a cara, essência e canhestrice dos filme B. A banda-sonora sonora taquicárdica do compositor brasileiro Antônio Pinto é o que mais assegura classe a um filme de suspense nas alturas. O argumento tem buracos incapazes de serem vedados e a atuação de Mark Wahlberg arranha uma canastrice tão desavergonhada que a sua personagem fica a parecer o Elmer J. Fudd dos Looney Tunes – e não só pelo seu aspeto calvo. Há pontos caricaturais gritantes por todo o lado, mas não travam o vigor de Gibson na abordagem da brutalidade. Há uma crueza (politicamente nada correta) que lembra o George Miller do fim dos anos 1970 e início dos 1980, ao capitanear Mel na criação do furioso Max Rockatansky.
Num ambiente de aspereza, a atriz Michelle Dockery constrói uma atuação galante, de um heroísmo em ressaca, alquebrado, que faz frente ao tipo monstruoso de Wahlbeg, estrela que se afina com Gibson na defesa da fé católica em Hollywood. Fotografado com enquadramentos convencionais por Johnny Derango, “Flight Risk” acompanha a armadilha na qual a agente federal Madelyn Harris (Dockery) cai, sobre as rochosas montanhas do Alaska, ao levar um contabilista envolvido com a máfia, Winston (Topher Grace, num desfile de carisma), para depor. O alçapão é a própria aeronave, pois o condutor (vivido por Wahlberg), almeja matar os seus tripulantes. Os planos transformam a embarcação numa arena (aérea) claustrofóbica. O maior acerto do guião de Jared Rosenberg é alimentar essa claustrofobia que Gibson sabe traduzir em imagens com a ajuda da elétrica montagem de Steven Rosenblum.
Nota-se (e lamenta-se) a falta de acabamento no produto final, o que resulta num espetáculo torto, mas com identidade. Gibson não se arriscou a fazer um filme de ação à moda “John Wick”, até porque esses, renovadores do seu género, calcam-se em realizadores que foram duplos (como Chad Stahelski). Preferiu antes apostar na “suspensão da certeza” e depurar o medo, com o reforço de uma estrela inspirada (Dockery).




















