Machado de Assis foi preciso ao dizer que números não comportam metáforas, por isso, não há sofisticação alguma na afirmação de que o sucesso de “Bad Boys”, a franquia inaugurada em 1995, é inquestionável: 840 milhões de dólares é a sua faturação. O quarto episódio, “Ride Or Die” (batizado de “Tudo ou Nada” em Portugal e de “Até o Fim” no Brasil), orçado em 100 milhões de dólares, estreia na reta final do primeiro semestre de 2024 com fome de salas e se calça em duas personagens de forte apelo popular – os detetives Marcus Burnett (Martin Lawrence) e Mike Lowry (Will Smith) – para isso. A realização foi confiada a Adil El Arbi e Bilall Fallah, os responsáveis pela terceira longa-metragem da cinessérie, que se tornou a fita de maior arrecadação de Hollywood no ano zero da pandemia: 2020. Os dois hoje purgam com a delicada decisão do grupo Discovery – Warner de suspender a estreia de “Batgirl”, no circuito e na plataforma Max. Perderam um potencial sucesso por nada, mas asseguraram uma vaga no que já se candidata ao posto de filme mais divertido do ano.
Em meados dos anos 1990, quando Michael Bay assinou o “Bad Boys” original, ele (que agora é o produtor de “Tudo ou Nada”) saía da condição de “realizador de videoclipes” para o posto de “promessa da realização”. Na ocasião, a jornalista brasileira Ana Maria Bahiana publicou um ensaio analítico riquíssimo sobre o contexto industrial e social do projeto. Ela dizia que Smith e Lawrence chegavam para dar continuidade a um legado heroico divertido, aberto por Eddie Murphy, que tinha a função de dar às plateias do movimento negro um herói com os quais se identificassem diretamente, sem passar por um arquétipo WASP (White, Anglo-Saxon and Protestant/Branco, Anglo-Saxão e Protestante). Murphy foi a génese do que os “Bad Boys”, a marca, se transformou: ou seja, uma inspiração para novos espectadores. Era uma porta aberta para novos talentos. Hoje, a saga é um novo caminho para nomes como Smith (abalado pelo episódio com Chris Rock nos Oscars de 2022) e Lawrence. Esse, então, vive o seu apogeu cómico no quarto tomo do universo que ajudou a consagrar.

A “figura” galhofeira de Burnett dá a Lawrence algo de Jack Lemmon. Ele é como nós: analisa as coisas simples (outras nem tanto) da vida, enquanto tenta levar uma rotina de paz depois de se recuperar de uma paragem cardíaca durante a festa de casamento de Lowry – personagem que devolve ao cinquentão Willard Carroll “Will” Smith Jr. uma força apolínea há muito perdida.
Na nova trama, que surpreende as plateias ao incorporar em certas sequências uma estética dos videojogos com perspetiva na primeira pessoa, Bunnett e Lowry são envolvidos numa acusação de corrupção que envolve o seu finado chefe, o Capitão Howard (o ótimo Joe Pantoliano). Ele morreu nas mãos do traficante Armando Aretas(Jacob Scipio), filho de Lowry, que tem aqui uma hipótese de redenção, ao ajudar os heróis a provar a inocência do falecido mentor. Eles têm pela frente um vilão como há muito tempo o cinema de ação americano de superproduções classe A não via: McGrath, um ex-agente do DEA vivido por Eric Dane (o Dr. Sloan de “Grey’s Anatomy”). A sua crueldade e a sua meticulosidade são ímpares.
Os seus planos para incriminar o nome já defunto de Howard e dos seus acólitos e transferir para si verbas milionárias garantem ao guião de Chris Bremner e Will Beall as deixas para uma série de perseguições que Adil & Bilall realizam nos limites do género. O banho de adrenalina que a película nos dá é acompanhado por uma descarga forte de bom humor. Se o terceiro capítulo da saga dialogava com elementos folhetinescos das telenovelas latinas, este quarto capítulo conversa mais com a comédia serializada americana dos anos 1990.E aí se incluem “The Fresh Prince Of Bel-Air”, que consagrou Smith.





















