Há pelo menos quatro anos, desde o fiasco de Thor: Love and Thunder (2022), Hollywood procura desesperadamente um substituto para o modelo de negócio que transformou os super-heróis na força dominante da indústria audiovisual a partir de 1998. O sinal de alerta surgiu quando produções de enorme orçamento, como a última aventura do Deus do Trovão e Black Adam, ficaram muito aquém das expectativas artísticas e comerciais, revelando sinais de fadiga num filão que, durante duas décadas seguidas, sustentou o sistema de estúdios dos EUA. Desde então, a indústria passou a apostar na recuperação de propriedades intelectuais com forte valor nostálgico, sobretudo ligadas ao imaginário infantojuvenil dos anos 1980 e 1990. Depois do êxito das adaptações de videojogos, chegou a vez de ressuscitar universos que moldaram a infância de várias gerações, numa linhagem que remete para clássicos como The Goonies, E.T. the Extra-Terrestrial e The NeverEnding Story. É nesse movimento que surge Masters of the Universe, decalcado de uma linha de bonecos da Mattel. É uma aposta de divertimento inegável, mas assolada por esquizofrenias políticas.
Travis Knight chega à realização de Masters of the Universe com um currículo que o coloca entre os mais interessantes artesãos da fantasia contemporânea. Filho de Phil Knight, fundador da Nike, construiu o seu percurso longe dos negócios da família, afirmando-se como animador e produtor na Laika, estúdio responsável por títulos como Coraline (2009), ParaNorman (2012), The Boxtrolls (2014) e Kubo and the Two Strings (2016), este último realizado por si e nomeado para dois Óscares. Em 2018, surpreendeu Hollywood ao assinar Bumblebee, considerado por muitos críticos o melhor capítulo da saga Transformers, graças à forma como privilegiou personagens secundárias, apostando na emoção em detrimento da mera destruição digital. O seu cinema caracteriza-se por uma permanente procura de encantamento visual, frequentemente ancorada em protagonistas jovens confrontados com universos maiores do que eles próprios. Em Masters of the Universe, Knight volta a revelar essa aptidão para conjugar espetáculo, fantasia e nostalgia, procurando recuperar a dimensão épica e lúdica que fez da mitologia do planeta fictício Eternia uma referência incontornável da cultura popular dos anos 1980.
Inegavelmente empolgante, embora prejudicada a meio do percurso por escolhas discutíveis de fotografia e direção de arte, mais bruxuleantes do que o necessário, a aventura pop de Travis Knight nasce sob uma tensão criativa permanente. Por um lado, procura recuperar o espírito aventureiro e fantasista que definiu a marca original; por outro, sente a necessidade de reinterpretar esse legado à luz das sensibilidades contemporâneas. O resultado oscila entre a homenagem e a desconstrução, nem sempre encontrando equilíbrio entre ambas. Parece dar palestras moralistas à plateia, em diálogos expositivos.
Essa hesitação torna-se visível na forma como o argumento encara a própria ideia de heroísmo masculino. A designação He-Man, que durante décadas simbolizou uma fantasia juvenil de coragem e força, transforma-se aqui em alvo recorrente de comentários irónicos. O filme parece empenhado em questionar permanentemente os símbolos de virilidade associados à personagem, convertendo aquilo que poderia surgir como uma observação subtil numa estratégia dramatúrgica insistente. A desconstrução acaba por se impor de forma demasiado explícita, sacrificando alguma espontaneidade narrativa.
A situação estende-se à representação do grande antagonista. Interpretado pelo oscarizado Jared Leto, Skeletor oscila entre a ameaça apocalíptica e a caricatura assumida, nunca encontrando uma estabilidade tonal que lhe permita atingir a dimensão mítica que a personagem alcançou ao longo das décadas. Há momentos em que parece uma entidade demoníaca capaz de destruir Eternia; noutros, aproxima-se involuntariamente do registo burlesco, como se saísse de uma comédia de série B.
A ironia está no facto de a própria franquia ter nascido de uma simplicidade quase ingénua. Masters of the Universe começou como uma linha de figuras de ação lançada pela Mattel em 1982. A mitologia que lhe deu profundidade só seria verdadeiramente consolidada com a série animada He-Man and the Masters of the Universe, produzida pela Filmation e exibida entre 1983 e 1985, ao longo de 130 episódios. Foi aí que se definiu o universo de Eternia, planeta onde magia ancestral e tecnologia futurista coexistem sob a sombra do misterioso Castelo de Grayskull.
A série estabeleceu o conflito central entre He-Man — identidade heroica do Príncipe Adam — e Skeletor, feiticeiro de pele azul e rosto esquelético obcecado pelos segredos de Grayskull. Ao redor deles formou-se uma vasta galeria de personagens, entre as quais se destacavam Man-At-Arms, estratega militar e inventor; Teela, guerreira da Guarda Real; Orko, o trapalhão mago vindo de Trolla; Stratos, soberano alado de Avion; Ram-Man; e Man-E-Faces, ator capaz de alterar literalmente a própria face.
O sucesso da animação levou ao surgimento de banda desenhada, romances, videojogos, revistas e novas séries televisivas. Em 1985, a expansão do universo trouxe She-Ra: Princess of Power, centrada na irmã gémea de Adam, Adora, líder da resistência contra a Horda no planeta Etheria. Nas décadas seguintes surgiriam novas versões de He-Man and the Masters of the Universe, The New Adventures of He-Man, Masters of the Universe: Revelation, Masters of the Universe: Revolution e She-Ra and the Princesses of Power, confirmando a longevidade da propriedade.
No novo filme, Travis Knight recupera parte dessa mitologia ao acompanhar o regresso do Príncipe Adam a Eternia após uma longa ausência na Terra. Nicholas Galitzine assume a personagem com notável carisma, conseguindo transmitir simultaneamente vulnerabilidade e imponência. O ator acaba por ser a âncora emocional da produção. Idris Elba destaca-se como Man-At-Arms, mentor militar e figura paternal de Teela, interpretada por Camila Mendes.
Quando finalmente ergue a Espada do Poder e proclama o célebre “Eu Tenho a Força!”, Galitzine recorda por que motivo esta personagem atravessou mais de quatro décadas de cultura popular. É nesse instante que o filme se aproxima do encanto que tornou He-Man and the Masters of the Universe um fenómeno global. Pena que tantas preocupações contemporâneas, legítimas em si mesmas, acabem por limitar a força de uma aventura que funcionaria melhor se confiasse mais plenamente na imaginação, na fantasia e no espírito de descoberta que fizeram da franquia um símbolo incontornável da infância dos anos 1980.





















